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Etarismo Sexista: O que Significa ser uma Mulher Velha no Brasil

por Juddy Garcez


“Há casa que tem cinco filhos e velha é quem anda o dia inteiro pedindo esmola.”

(Jesus, 2006, p. 18)

A questão temporal recorta nossas vivências, das mais distintas formas, diariamente. A compreensão da vida humana a partir de um aspecto linear, cujo ápice é encontrado na juventude ou mesmo na vida adulta, despreza as etapas anteriores e posteriores a este período

(infância e velhice) e as subjuga como sendo um espaço a ser superado e/ou evitado. (Krekula

et al., 2018) A formação da identidade do que é ser “velho”, que como tantas outras é construída (ou destruída) ao longo de um continuum espaço-temporal e, no contexto pós moderno, a fratura destas variações fica ainda mais evidente. (Hall, 2006.)

Como Silva (2008) argumenta, tanto a velhice quanto as demais categorias etárias são

inventadas, estando a velhice, em especial, atrelada ao processo de modernização das sociedades Ocidentais. Assim como estas outras categorias identitárias, a velhice variou no

tempo (Silva, 2008; Viera e Maciel, 2020), e ainda constitui terreno de disputa, de feitura e/ou esfacelamento ontológico. Somos definidos, ao longo de nossas vidas, a partir de marcadores biológicos, morais, psicológicos, culturais – visíveis ou não – que partem de diferentes elementos que são, em boa parte, construtos sociais: gênero, sexo, raça, etnia, religião, localização, etc. Estes outros fatores, por sua vez, interseccionam-se com a questão etária que pode configurar, por si só, uma fonte de preconceito e discriminação.

O etarismo, ageísmo, idadismo, velhismo (Rodrigues et al., 2019) ou edaísmo (Santa

Rosa, 2008), pode ser entendido como o preconceito de pessoas de uma determinada idade contra pessoas de outra idade. De forma mais profunda, o etarismo configura uma discriminação e um estereotipamento contra um indivíduo e/ou grupo de pessoas com base em sua idade. (Butler 1969) Concordo com Krekula et al. (2016, 2018) quando argumentam que a idade consiste em duas práticas interconectadas: o fazer, calcado na compreensão da idade como uma categoria social e culturalmente construída; e a relação de poder, que perpassa três dimensões: a desigualdade categórica, a normalidade que aparece na idade não-marcada e a estruturação via temporalidade (existente, por exemplo, no curso de vida institucionalizado e nos códigos temporais). No que diz respeito a esta relação de poder, Butler (1969) acredita que, no nível social ou mesmo individual, o etarismo praticado por jovens e pessoas de meia idade contra os idosos é reflexo de uma repulsa pelo envelhecimento, por doenças e deficiências, em combinação com o temor da impotência, da inutilidade e da morte. Esta construção é possibilitada pela dicotomização entre o jovem e o velho na codificação da idade, na qual ser jovem é ser ativo e cheio de vida e seu exato oposto, o ser velho, é ser passivo e destituído de vida. (Krekula et al., 2018)

Com a agudização de discursos e práticas etaristas com o advento da pandemia de Covid-19 (Fraser et al., 2020; Henning, 2020; Schuch; Víctora; Siqueira, 2021), tanto por parte dos Estados como da sociedade e dos indivíduos de forma mais ampla, o assunto tem vindo à tona, principalmente nos debates sobre políticas públicas e economia. Ainda assim, as/os teóricas/os de RI não se dignaram a prestar atenção a este problema ou ao mesmo considerar possíveis práticas etaristas por parte destas entidades sociais. Muitas perguntas surgem, então, quando olhamos para a questão etarista: como este preconceito é operacionalizado? Por que este problema, apesar de tão crítico, é pouco observado em RI? Como é a experiência destas pessoas? E o imbricamento entre etarismo e sexismo? E etarismo, sexismo, racismo?

Considerando as questões acima, e tantas outras, comecei a pensar sobre as possíveis implicações do etarismo para mulheres idosas. Adensando um pouco mais o exercício, questionei esta vivência recortada por gênero e idade no caso brasileiro e delimitei uma pergunta: o que significa ser uma mulher velha no Brasil? A resposta mais direta e sincera é: depende. Se você perguntar isso para uma senhora branca e rica do Leblon certamente a resposta será diferente daquela dada por uma senhora negra e pobre moradora da Rocinha. Contudo, antes de adentrar nestes pormenores dos recortes entre idade, gênero, raça e classe, farei uma breve exposição sobre o problema etarista no Brasil.

Como aponta Goldani (2010), os debates sobre equidade geracional no Brasil tiveram um boom nos anos 1990 como um reflexo das discussões internacionais e nacionais acerca das reformas do sistema de seguridade social e aumento dos gastos sociais. Conforme relata a autora, três são os principais tópicos que se vinculam à temática: (1) aposentadoria forçada para idosos quando há baixa oferta de empregos; (2) ideia de competição entre as gerações mais novas e mais velhas pelos escassos recursos disponíveis após as reformas de seguridade social; e (3) imaginário acerca dos “benefícios” que os idosos recebem do sistema de seguridade social.

Embora muitos outros assuntos façam parte deste universo, selecionei somente os três acima como forma de evidenciar o viés negativo através do qual as pessoas idosas são enxergadas. Usualmente enevoados por discursos médicos, midiáticos e de economistas, estas pessoas são costumeiramente alvos de acepções acerca de seus corpos, seus pensamentos, desejos, vontades e interesses. Segundo Rodrigues et al. (2019), a velhice, nas sociedades ocidentais, é estereotipada, sendo compreendida como um período de perdas e limitações, o que pode ser observado nos próprios debates acerca de um possível conflito intergeracional por recursos financeiros estatais.

Para Vincent (1996), o mercado influencia fortemente a forma como as visões sobre a velhice são moldadas. Neste ponto é interessante retomar o argumento que levantei no início deste texto, o de que a velhice é uma experiência não somente construída, como inventada e, como tal, passível de ser experienciada de diferentes maneiras com base nas mais diversas configurações subjetivas de cada indivíduo. Assim, se pensarmos nas variações epistemológica e ontológica brasileiras, veremos que as formas através das quais o etarismo é operacionalizada e vivenciado são ímpares ao nosso contexto e estão profundamente atreladas tanto as imagens positivas (a exemplo do velho sábio, cuja legitimação está calcada na experiência) quanto as negativas (como acontece no caso do “velho babão” e sexista).

Este imagético social sobre o que é ser velho e no que consiste a velhice se adensa ainda mais quando fazemos seu entrecruzamento com outros marcadores, a exemplo dos gênero, raça e classe. Para Marshall (2006), todos os dias nos confrontamos com as mudanças – físicas, psicológicas e sociais – que acontecem com o passar do tempo. “(…) todas nós que vivemos eventualmente pertenceremos à categoria da ‘Outra’ que é a velhice.” (Marshall, 2006, p.vii). Ainda assim, apesar da importância de se observar os processos de outrização da pessoa velha, em especial da mulher, ainda que as estudiosas e ativistas feministas não desconsiderem o problema do etarismo, elas certamente o relegam às margens, ora não teorizando sobre tal acontecimento, ora não o posicionando nos centros de suas análises. (Calasanti, Slevin & King, 2006).

No que diz respeito a este etarismo sexista, ou genderizado, Goldani (2010) nos oferece dados interessantes:


O preconceito etário médico no Brasil pode ser exemplificado pelas estatísticas sobre a AIDS, contidas no relatório de 2008 sobre essa epidemia mundial, cujos índices mostram que o número de brasileiras soropositivas com idades entre 50 e 59 anos duplicou entre 2000 e 2007. Este número aumentou em 88% para as mulheres entre 60 e 69 anos e em 190%, para as de mais de 70 anos. Embora menos marcada, a tendência entre os homens também mostrou números crescentes.O aumento agudo da AIDS entre mulheres mais velhas, no Brasil e em alguns outros países da America Latina,13 gerou um debate sobre as causas potenciais, que são ilustrativas do preconceito etário. Um grupo importante de causas tem a ver com a vulnerabilidade dessas mulheres, por não estarem mais em idade reprodutiva. Por não haver mais risco de gravidez, as preocupações com o uso de preservativos diminuem, fato que se soma ao estagio pós-menopausa, quando as mulheres são mais vulneráveis porque os tecidos vaginais são mais frágeis. Para piorar esse quadro, num contexto marcado por fortes diferenças de gênero, a negociação das mulheres para que os seus parceiros usem preservativos parece ser difícil e menos comum entre casados ou em uniões estáveis. (Goldani, 2010, p.423-424)


Como é possível observar no excerto acima, muitos são os problemas enfrentados pelas mulheres idosas, dentre eles o descaso com a saúde. Dito isto, é preciso que eu revise minha própria escrita e assuma que o etarismo, bem como a velhice, não é uno (Goldani, 2010) e, mesmo em sua forma genderizada, ele irá variar com base na raça, classe, sexualidade, localização geográfica etc. Embora sejam parcos os estudos que contem com estes imbricamentos no caso brasileiro, é interessante notar que em uma pesquisa realizada pelo Icict em 2020, a socióloga Dália Ribeiro constatou que


No Rio, em algumas favelas, como Maré e Manguinhos, por conta da iniciativa de instituições como a Fiocruz, vimos capacidade de organicidade de solidariedade – com grupos de mulheres negras, de jovens já acostumados a resistir, que tentaram proteger à população idosa. Não conheço iniciativa similar em bairros nobres e de classe média”, afirma. (FIOCRUZ, 2021, s.p.)



O que significa ser uma mulher velha no Brasil então? Infelizmente este questionamento não pode ser respondido neste texto, quiçá em uma pesquisa de pós-doutoramento. Esta é uma questão ampla e deveras complexa. Entretanto, é a partir dela que poderemos pensar sobre as violências sofridas por mulheres idosas, por mulheres idosas pobres, ou negras, ou lésbicas, ou com deficiência, ou trans, ou acamadas, ou trabalhadoras… Por mulheres idosas que possuem outras características físicas, psicológicas, econômicas, sociais, culturais, religiosas, e que são oprimidas não duas, mas três, quatro, cinco, seis vezes de forma mais intensa. É por meio deste tipo de questionamento que conseguiremos compreender minimamente o lugar da Outra, dentro e fora de RI.


Referências


Butler, R. N. (1969). Age-ism: Another form of bigotry. The Gerontologist, 9(4), 243–246.


Calasanti, T., Slevin, K. F., & King, N. (2006). Ageism and Feminism: From “Et Cetera” to

Center: The Bias of Middle Age. 18(1).


Fiocruz (2021) Mês do idoso: pesquisadora analisa o envelhecimento no Brasil. Fiocruz (site). Disponível em: <https://www.unasus.gov.br/noticia/mes-do-idoso-pesquisadora-analisa-o-envelhecimento-no-brasil>. Acesso em 01 dez. 2021.


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Goldani, A. M. (2010a) Desafios do “preconceito etário” no Brasil. Tradução de Alain François, com revisão técnica de Carolina Peres. Educ. Soc., Campinas, v. 31, n. 111, p. 411-434, abr.-jun. 2010.


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Hall, S. (2006) A identidade cultural na pós-modernidade. Tradução: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 11a ed. Rio de Janeiro: DP&A.


Henning, C. E. (2020) Nem no mesmo barco nem nos mesmos mares: gerontocídios, práticas

necropolíticas de governo e discurso sobre velhices na pandemia da Covid-19. Cadernos de Campo, 20(1): 150-155.


Jesus, C. M. de. (2006) Quarto de Despejo: Diário de uma favelada. 8.ed. São Paulo: Ática


Krekula, C., Nikander, P.; Wilińska, M. (2018). Multiple marginalizations based on age: gendered ageism and beyond. In: Ayalon, L.; Tesch-Römer, C. (Eds.) Contemporary perspectives on ageism: Vol. 19. International perspectives on aging (pp. 33–50). Berlin: Springer.


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Santa Rosa, A. L. C. de. (2008) Aprendendo a caminhar na cidade: idosos em residências terapêuticas. Tese (doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social.


Schuch, P.; Víctora, C. G.; Siqueira, M. D. de. (2021) Cuidado e controle na gestão da velhice

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Vieira, R. de A.; Maciel, L. S. B. (2020) Melhor idade, ou naturalização da velhice e produção de preconceitos? Série-Estudos, Campo Grande, MS, v. 25, n. 54, p. 49-63, maio/ago.


Vincent, J. (1996). Who’s afraid of an ageing population? Nationalism, the free market and the construction of old age as an issue. Critical Social Policy 47 (SAGE. London, Thousand Oaks, CA and New Delhi), Vol. 16, p.3-26.




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