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Análise da Maternidade Compulsória como Influência da Cultura Patriarcal

Por Keila Alves


Mulheres realizam protesto em defesa dos direitos femininos, durante o Dia Internacional da Mulher, em Barcelona, na Espanha - 08/03/2018 Pau Barrena/AFP - Fonte: Justificando.com


No decorrer da história humana a maternidade compulsória tem estado amplamente presente na vida das mulheres. Ser mãe é colocado como um destino inerente dentro dos padrões estabelecidos pelo patriarcado, enfatizando a constante pressão social imposta para que as mulheres constituam uma família. Por consequência, inúmeros impasses são desencadeados, como a responsabilidade da criação ser designada de forma íntegra para a mulher e a culpabilização das mulheres que fogem dos padrões designados. A maternidade é considerada sagrada em decorrência de influências culturais e religiosas, advindas do patriarcalismo. Essa concepção subjuga a mulher para esse papel social de modo que estabelece regras de controle para sua liberdade reprodutiva.

Segundo Scavone (2001) um dos conceitos mais relevantes levantados por Simone de Beauvoir foi o questionamento em torno da maternidade como um determinismo para as mulheres. O discurso de que a maternidade é natural ao gênero, pressupõe a existência de um instinto maternal presente em todas as mulheres. Contudo, é preciso pontuar que essa afirmação sustenta a ideia da simplicidade do cuidado e do amor dentro da maternidade, aspectos fortemente idealizados e que fortalecem o crescimento da maternidade compulsória na sociedade. Mediante essas concepções, é pautado que o único caminho digno para as mulheres é aquele em que a maternidade é o centro de suas histórias, isso porque o papel da mulher sempre esteve atrelado aos cuidados da família e à execução das tarefas domésticas.

Araújo (2004) relata que no período colonial e posteriormente no Império, a mulher era ensinada a ser uma boa mãe e esposa, servir ao marido e a casa e nunca desejar ocupar o espaço público. (ARAÚJO, 2004 p. 41).

A partir de Beauvoir, o movimento feminista passou a pensar a maternidade como uma construção social e instrumento de dominação patriarcal sobre o feminino para delimitar o lugar das mulheres socialmente e reservado-as somente os espaços domiciliares.

Com os anos 90, o olhar feminista se voltou para as relações de gênero de forma a problematizar novamente a questão da maternidade e ao considerar as subjetividades atreladas ao ser mulher e mãe. Desse modo, a romantização da maternidade começa a ser debatida não somente como um símbolo de sucesso e realização das mulheres, mas também, como um símbolo de opressão e poder. Com isso, a maternidade passa a ter diversas interpretações, sendo que ela é entendida principalmente como um processo histórico, cultural e político ligado às relações de poder entre homens e mulheres.


O estranhamento da sociedade com as mulheres que não optam pela maternidade


Outrossim, o debate acerca da idealização da maternidade tem se tornado cada vez mais intenso, fato que se dá principalmente pela atuação de grupos feministas que lutam pela liberdade da decisão da mulher sobre seus direitos reprodutivos e dessa forma, combatem a maternidade compulsória. O discurso social invisibiliza as mulheres que escolhem não serem mães, pois defende a inexistência dessa opção, impondo a maternidade como uma obrigação feminina. Assim, é imposta a culpa e desvalorização da liberdade de escolha para mulheres que não optam pelo processo maternal.


Segundo Badinter (1985, p. 19-21) O amor materno foi por tanto tempo concebido em termos de instinto que acreditamos facilmente que tal comportamento seja parte da natureza da mulher, seja qual for o tempo ou o meio que a cercam. Aos nossos olhos, toda mulher, ao se tornar mãe, encontra em si mesma todas as respostas à sua nova condição. Como se uma atividade pré-formada, automática e necessária esperasse apenas a ocasião de se exercer. Sendo a procriação natural, imaginamos que ao fenômeno biológico e fisiológico da gravidez deve corresponder determinada atitude maternal. [...] Essa concessão suscita várias questões: que é um instinto que se manifesta em umas e não em outras? Devemos considerar "anormais" todas as que o desconhecem? E que pensar de um comportamento patológico que atinge tantas mulheres de condições diferentes e dura há séculos? [...] Como o amor, se era natural e portanto espontâneo, poderia voltar-se mais para um filho do que para outro? Por que, se as afinidades são eletivas, amaríamos mais o menino do que a menina, mais o primogênito do que o caçula? [...] E apesar das intenções liberais, vemos sempre como uma aberração, ou um escândalo, a mãe que não ama seu filho. Estamos prontos a tudo explicar e justificar de preferência a admitir o fato em sua brutalidade. No fundo de nós mesmos, repugna-nos pensar que o amor materno não é indefectível. Talvez porque nos recusemos a questionar o amor absoluto de nossa própria mãe. “


Foto: Reprodução/Agência Brasil


O conceito propagado de “relógio biológico", por exemplo, é uma forma de controlar a liberdade dos desejos femininos sobre seu próprio corpo, colocando-as numa situação de obrigatoriedade para com a maternidade de forma precoce. Portanto, as mulheres adentram nesse processo ao acreditarem que a maternidade é uma obrigação. Além disso, a busca desenfreada de satisfazer os referenciais da sociedade, coloca sua liberdade de decisão em segundo plano.

Com o tempo, as mulheres mostram-se desiludidas com a maternidade real e cultivam um sentimento árduo de incapacidade de corresponder às normas sociais constantemente impostas a elas. Os papéis de gênero, resultantes do sistema patriarcal, possuem regras a serem cumpridas, como a responsabilidade da criação em seus variados aspectos. Ademais, a imagem da maternidade natural é usada como uma justificativa para isentar os homens de suas responsabilidades paternas, gerando uma forte sobrecarga para as mulheres ao desempenharem as principais atividades envolvidas na maternidade.

Com isso, salienta-se que essas divisões não estão relacionadas com a natureza feminina e ao instinto materno mútuo às mulheres, mas estão diretamente relacionadas com as construções das normas sociais machistas. Isso porque a visão social é limitada no que tange à singularidade da mulher ao não respeitar as condições que as levam a não serem mães.

De acordo com Barbosa e Rocha-Coutinho (2007, apud BONINI-VIEIRA, 1997), atualmente algumas mulheres não enxergam a maternidade como relevante para as suas vidas e portanto, possuem outras prioridades como os âmbitos profissional e acadêmico. Em decorrência de suas decisões, passam a ser julgadas de forma recorrente e enfrentam a pressão social para terem a maternidade como foco de sua trajetória. “perdem sua inteligibilidade social e alinham-se na fileira dos excluídos” (SWAIN, 2007, p. 201).

Como apontam Rios e Gomes (2009), ao não aderir à maternidade, a mulher passa a ser encarada pela sociedade com abjeção, porque a sua decisão é vista como uma anormalidade, uma vez que não responde às expectativas sociais em relação ao papel social que seria reservado para a mulher. Assim, as mulheres que abdicam da maternidade são vistas como egoístas.

De acordo com os autores Patias e Buaes (2012, p.302): “As representações dos filhos como destino natural de toda mulher produziu a perspectiva de que a maternidade é o caminho da plenitude e realização da feminilidade. Trilhar esse caminho implica ter uma vida de renúncia e sacrifícios prazerosos indispensáveis à constituição da identidade feminina.”

Cabe evidenciar que o movimento feminista protagonizou a busca pela problematização desses discursos e pôde constatar que a maternidade é uma decisão e portanto, uma construção social. Além disso, trouxe a relevância do respeito à pluralidade feminina ao abranger que a mulher pode escolher ter filhos e construir de fato sua identidade materna enquanto desempenha esse papel ou não ter filhos pelo motivo de não desejar viver a maternidade. Assim, é imprescindível entender que a maternidade não é inerente à condição de ser mulher. Além disso, é essencial a luta feminista para que a sociedade possa ampliar sua visão em torno dessa causa e de fato, permita uma discussão livre de julgamentos a fim de fazer com que a maternidade seja uma opção e sua atual conjuntura de imposição social seja deixada para trás.


Referências:


César, R.C.B; Loures, A.F.; Andrade, B.B.S. A romantização da maternidade e a culpabilização da mulher. Revista Mosaico 2019 Jul./Dez.; 10 (2): SUPLEMENTO 68-75


TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993. 181 p. (Tudo é História).


BADINTER, E.O conflito: a mulher e a mãe. Rio de Janeiro: Record, 2011.

PATIAS, N. D.; BUAES, C. S. "Tem que ser uma escolha da mulher"! Representações de maternidade em mulheres não-mães por opção.


ARAÚJO, E. A arte da sedução:Sexualidade feminina na colônia. In: PRIORE, Mary Del (org); Bassanezi, Carla (coord. de textos). História das mulheres no Brasil. 7. ed. – São Paulo : Contexto, 2004.


BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

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