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A Revolução será Twittada? Uma Análise a Respeito do Ativismo Digital

Por: Juliana Santos & Emily Campos

Introdução


Substantivo masculino, ativismo é uma forma de ação que tem como maior objetivo transformar uma realidade indesejada através de movimentos se colocando como oposto da teoria e senso comum.

Com o avanço da tecnologia, é esperado que praticamente tudo acabe descobrindo novas formas de se colocar para a sociedade. Não foi diferente com o ativismo, que nesse caso em específico é denominado ativismo digital.

O ativismo digital é um novo tipo de busca por transformação. Além de ser compartilhado de uma forma muito mais rápida, se ter a possibilidade de lutar por uma causa através de uma tela de celular e conseguir construir uma grande rede de contatos ajuda muito nesse caminho recém descoberto e cada vez mais utilizado.

Existem muitos exemplos de como essa nova forma vem se popularizando. Questões climáticas são um exemplo interessante. Mas, algo que chamou muita atenção pela forma como foi abordado nos últimos anos e seus resultados positivos: ativismo digital e o seu impacto na legalização do aborto na Argentina.

A união das mulheres foi algo fantástico. A forma como se juntaram para auxiliar mulheres e como a sua forte presença nesses coletivos dentro das redes sociais foi fundamental e necessário. Sem contar de uma empatia e sororidade impactantes.


O que é Ativismo Digital?


A esfera pública é a dimensão social em que as microrrelações existentes no âmbito doméstico passam a um espectro mais amplo, agregando “diversos tipos de entidades que se comunicam num espaço informacional e comunicacional e que atuam em um jogo de forças para o estabelecimento de relações de poder” (MEDEIROS, 2013, p. 28). É, portanto, o espaço em que ocorre a mediação entre o Estado e a sociedade através de debates políticos almejando um consenso a partir de discussões crítico-racionais, na qual o público se organiza como portador da opinião pública.

A opinião pública é a interpretação e/ou o comportamento da sociedade ou da maior parte dela em relação a determinado assunto, tendo como função importante controlar o exercício do poder político pois se configura como a expressão mais direta e clara da participação popular na criação, controle, execução e crítica dos rumos de uma formação social.

O debate atual em relação a essas ideias se configura pelo fato da Internet, especialmente através das redes sociais, ter se tornado um espaço importante de intercâmbio e participação política, o que, segundo alguns estudiosos como Pierre Lévy, configura uma nova dimensão social: a “esfera pública virtual”.

As vantagens advindas dessa nova configuração das relações sociais são inúmeras. Uma delas é a conexão e a interação entre os usuários de forma que o isolamento não é permitido, o que leva a uma comunicação participativa, ativa e que mantém características de auto-organização, configurando-se como um operador para a ação de um trabalho de interesse público.

Nesse contexto, os fluxos informacionais e comunicacionais são fulcrais para alcançar cidadãos que, em outras situações, jamais poderiam criar opinião sobre determinada demanda ou tema. Tais fluxos são capazes de fornecer informações de forma ágil, gerando uma igualmente rápida mobilização.

Há também o surgimento de novas possibilidades de comunicação e informação como forma de aquisição de conhecimentos e debates. Assim,

(...) a Internet como possibilidade de expressão permite aos cidadãos alcançar outros cidadãos, possibilitando aos interessados participar do jogo democrático através de informação política atualizada e oportunidade de interação. Essa esfera virtual pode ser uma extensão da esfera tradicional, atuando como um espaço de extensão da expressão política. (MEDEIROS, 2013, p.30)

Esse novo espaço político emergente corrobora para a configuração da forma mais expressiva de articulação política: a potencialização dos movimentos sociais, permitindo a difusão de informação de maneira rápida e ampla e possibilitando a conexão de iniciativas globais e locais.

Ademais, a “potência do povo” é expandida e fortalecida uma vez que esse espaço auxilia na capacidade de pressionar governos para mais transparência, abertura e diálogo, pois seu uso afeta domínios essenciais ao cidadão e suas ações perante o Estado como a capacidade de aquisição de informações, de expressão, de associação e de deliberação.

Numa visão holística, a Internet auxilia na superação dos limites de tempo e espaço para a participação política; expande a extensão e qualidade do estoque de informações disponíveis, tendo como diferencial a comodidade, o conforto, a conveniência e o custo consideravelmente mais baixo do que outros meios, além da facilidade e extensão de acesso; opera sem filtros nem controles permitindo que as interatividade e a interação sejam expandidas; e, por fim, dá oportunidade para vozes minoritárias ou excluídas.

É nesse contexto que o uso para fins políticos das tecnologias da informação e da comunicação (TIC), especialmente pelos jovens, demonstra a necessidade de se repensar a definição de envolvimento político sob a ótica do denominado "ativismo digital".

A transformação do uso das TIC a partir do ciberativismo possibilitou que a comunicação unidirecional fosse superada, não somente através da possibilidade dos usuários de intervir e fazer suas vozes serem ouvidas como também através do acesso imediato às informações advindas de diversidade de fontes em todo o mundo. Além disso, facilitou os debates entre cidadãos, bem como a comunicação entre eles e os políticos.

Tal mudança influenciou a forma como as relações de poder se desenrolam no seio e entre as esferas públicas, levando à multiplicação das organizações que compõem essas esferas e ao estabelecimento de relações mútuas e cruzadas entre as TIC.

Com o aumento do número de pessoas com acesso à internet, houve o alargamento da esfera pública tradicional a partir de aspectos como a expansão da possibilidade de falar publicamente à sociedade em geral e o aumento da visibilidade e importância públicas das conversas privadas. Nesse sentido, as fronteiras entre o público e o privado atenuam-se, e os espaços sociais e as TIC intercomunicam-se.

Houve também o aumento das possibilidades de participação política a partir das TIC, permitindo formas de expressão que são menos exigentes, social e culturalmente. A participação na esfera pública é possível a qualquer momento e em qualquer lugar, visto que as TIC permitem o desenvolvimento a uma certa distância da política tradicional de um compósito de microespaços de discussões que são a todo momento constituídos, afastados ou deslocados através de modos de expressões tradicionais, novas, irônicas ou divergentes.

Além disso, as TIC proporcionam a capacidade, não só de constituir novas comunidades políticas, mas também de informar outras formas políticas alternativas como a denominada “política cultural” em que os participantes preferem os movimentos sociais em que o diálogo e não as relações autoritárias fazem parte integrante do processo político.

As agendas políticas também foram afetadas por todos esses processos, transcendendo as fronteiras nacionais e sendo mais intensas e personalizadas. O que, numa visão holística, significa que as ações políticas não se encontram direcionadas para o Estado, mas sim para questões específicas.


As gerações atuais e uma forma própria de fazer política


Era da tecnologia. Vivemos muitas transformações desde o início do século 21. A comunicação é um dos maiores exemplos, a necessidade da sociedade em se manter conectada de diferentes formas, mais rápida e consequentemente visando um impacto maior não apenas na comunidade ao seu redor.

As redes sociais estão repletas de pessoas influenciando outras. E isso não se limita apenas aos produtores de conteúdo que trabalham com esse meio. O ato de influenciar o seu próximo, ou a sua comunidade atuante é relativamente algo muito presente no nosso cotidiano.

O ativismo digital vem crescendo nesse ambiente. O mundo vem se recuperando de uma pandemia que impossibilitou de uma forma grandiosa o contato direto. A vida foi ainda mais adaptada para ferramentas de uso remoto. As pessoas passaram a relatar muito mais suas vidas na tela de um celular. E por mais que toda essa mudança intensa tenha sim muitas consequências negativas, é necessário ressaltar todo o aspecto positivo. Utilizar tudo que está em nossas mãos para continuar o processo de transformar o mundo é louvável.


A política não para. A fome não para. A desigualdade não para. Muito menos o aquecimento global ou a luta pelos direitos de todos. E exatamente por isso, indo muito além da pandemia, para se alcançar muito mais apoiadores de uma causa, é necessário utilizar ferramentas que o atraiam. Nesse caso, as redes sociais.

O ativismo digital, nosso protagonista do momento, nasceu assim. As novas gerações estão cada vez mais antenadas nas mudanças que o planeta precisa e lutam por isso de formas diferentes. É fantástico a forma como pessoas do país todo podem se conectar e saírem às ruas para manifestarem sobre algo que não está caminhando bem. É maravilhoso como uma jovem consegue levar pessoas do mundo todo a lutar pela educação, como Malala fez.

Realmente, graças às facilidades da internet, é muito mais fácil se conectar com pessoas ao redor do globo e impactar sobre uma determinada causa. Se manifestar, assumir um posicionamento e lutar pelo acredita está cada vez mais em nossas mãos e o ciberativismo ajuda a concretizar tudo isso.


Ativismo Digital e a sua contribuição na legalização do aborto na Argentina


Um projeto de Lei aprovou a legalização do Aborto na Argentina no final de 2020.

O aborto, de uma forma clandestina, está presente na realidade de muitos países que ainda não o legalizaram. Essa era a realidade do país vizinho quando o movimento “Nenhuma a menos" foi criado em 2015 e levantado para mudar a sociedade e abraçar todas as mulheres. No começo, era voltado para lutar contra casos terríveis de feminicídio. Uma forma pública para demonstrar asco e repúdio contra todo um sistema machista.

A luta pela aprovação do aborto seguro. Essa era a próxima grande e importante pauta pela qual lutariam. Se manifestando de forma pública e nacional.

O ativismo foi o grande responsável por essa grande movimentação. A luta pela legalização envolveu muitas pessoas. Deveria ser uma luta de todos na verdade. Mulheres se uniram para mudar uma situação.

O movimento “De una a menos” foi o grande ponto de mudança para a situação do país. O ativismo que foi além do digital foi extremamente importante desde os atos nas ruas até a presença nos meios de comunicação enquanto pressionaram os políticos e os poderes Executivo e Legislativo para que o projeto fosse até a Câmera.

Todas essas mudanças só aconteceram por causa de uma aliança muito forte criada entre todas as pessoas apoiadoras da causa. Foi sim um longo processo, mas satisfatório. Movimentos secundaristas também ajudaram. Uma união entre todos.

A junção entre veteranas e novatas na causa foi um grande ponto dessa conquista. Uma comoção nacional. Uma luta, um manifesto, se tornam imbatíveis ainda que não totalmente resolvidos quando se percebe a força dos seus integrantes. Isso aconteceu na Argentina. Mulheres fortes, imbatíveis e unidas.

Campanhas começaram nas redes sociais além de toda a comoção nas ruas. A onda verde, cor do movimento, se espalhava. O Twitter, uma rede social, ficou recheado de hashtags. Uma mobilização nacional que inclusive contou com a participação de celebridades.

Alguns anos antes da legalização ser aprovada, os lenços verdes já estavam bem fortes no país e justamente em 2019, ano de eleições presidenciais, o até então candidato e logo depois presidente eleito, Alberto Fernandez, se comprometeu em a criar um projeto de legalização do aborto em sua campanha.

E por fim, finalmente, no dia 30 de Dezembro de 2020 foi aprovado pelo Congresso o projeto de legalização do aborto até 14° semana de gestação.


Conclusão

O ativismo digital está cada vez mais conquistando seu espaço na sociedade atual e auxiliando muito na transformação do mundo.

Essa mistura entre diferentes gerações, com pessoas ao redor do planeta, que utilizam as redes sociais e através delas conseguem impactar todo um sistema é extremamente relevante e importante.

O ato de se fazer política saiu do teórico há bastante tempo. Os microespaços em muitos momentos são formados na internet e isso facilita muito nas novas e diferentes formas de se fazer política. Tudo é político. Viver é político e justamente por esse fato, o ativismo é apenas mais um braço dessas movimentações.

As novas gerações possuem interesses cada vez mais diferentes juntamente com uma maior facilidade para utilizarem ferramentas modernas e através se posicionarem enquanto causam um grande impacto.

Por fim, o ativismo digital é o presente e o futuro. Pessoas estão mudando ao seu redor através de postagens nas redes sociais e deixando sua marca no mundo. Quando era possível imaginar isso?


Referências bibliográficas

FRENETTE, Micheline, VERMETTE, Marie-France. Os jovens adultos e a esfera pública digital: uma perspectiva intercultural. Comunicação e Sociedade, n. 23, 2013, p. 14-35.

MEDEIROS, Jackson da Silva. Considerações sobre a esfera pública: redes sociais na internet e participação política. TransInformação, Campinas, v. 25 n. 1, jan./abr. 2013, p. 27-33.

SOUZA, Marcelle. As lições que podemos aprender com a legalização do aborto na Argentina. Delas, fev.2021. Disponível em: https://delas.ig.com.br/comportamento/2021-02-09/as-licoes-que-podemos-aprender-com-a-legalizacao-do-aborto-na-argentina.html. Acesso em: 26 jul. 2021

DIP, Andreia. Argentina: do “Nenhuma a menos” à legalização do aborto. Publica, jul.2018. Disponível em: https://apublica.org/2018/07/argentina-do-nenhuma-a-menos-a-legalizacao-do-aborto/. Acesso em: 26 jul.2021

ROSA, Luciana. Como ativistas se uniram para ajudar 32 mil mulheres a abortar na Argentina. Universa, dez.2020. Disponível em: https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/12/12/socorristas-en-rede-aborto-argentina.htm. Acesso em: 26 jul. 2021

RIBEIRO, Débora. Ativismo. Dicio, ago.2018. Disponível em: https://www.dicio.com.br/ativismo/. Acesso em: 23 jul. 2021



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