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A Política da Menstruação

por Juddy Garcez Moron


Política. Esta certamente é uma palavra que ouvimos com frequência nas aulas de graduação em Relações Internacionais. Política, poder, balança de poder, anarquia, soberania, Estado e tantos outros conceitos-chave que dizem muito, mas ao mesmo tempo quase nada. Como é possível observar na vasta obra de Cynthia Enloe, a política - e o internacional - nada mais são do que um amontoado de pequenos acontecimentos diários que, quando conectados, formam este etéreo arcabouço. O imaginário acerca do público político e do privado apolítico é reiterado todos os dias nas construções tanto da disciplina, quanto de nossas próprias vivências, e, em última instância, esta dicotomia surge como uma profecia autorrealizável em nossos corpos que, por sua vez, ocupam um lugar no Estado - ou melhor, são o Estado em seu caráter mais físico.

Falar de menstruação, então, é falar dos nossos corpos, das nossas vivências e experiências. Porém, é falar também do Estado, de política e sangue. Antes de desenvolver mais este raciocínio, trago aqui um excerto Winkler (2020), em que a autora reafirma o caráter político-social da menstruação.


A maioria dos artigos sobre menstruação começa apontando que a menstruação é um processo biológico normal. Isso, é claro, é verdade. Mas ao mesmo tempo, a menstruação é muito mais para muitas pessoas; na verdade, é fundamental. A menstruação une o pessoal e o político, o íntimo e o público, o fisiológico e o sociocultural. (WINKLER, 2020, p.9)


Como Ana Von Reuber (2012) aponta, menstruar é considerado um assunto doméstico e obsceno e, como tal, apolítico. Mas será mesmo que tal consideração está correta? Assim como eu - e tantas outras mulheres - Sophie Laws (1990) não somente discorda, como problematiza tais premissas sociais em seu livro “Problemas de Sangue: a Política da Menstruação”. Embora seja um senso comum já bem estabelecido nas sociedades Ocidentais, menstruar não é sinônimo de sujeira ou descuido; não é, necessariamente, um período de dores e isolamento. Ou ao menos não deveria ser. Entretanto, como Laws (1990, p.3) comenta, “Todas as teorias relacionadas com os significados da menstruação, embora simples, são políticas por natureza, em uma sociedade dividida por gênero.”

Uma possível causa para tal problema é a forma como o corpo feminino¹ é visto e tratado no Ocidente. Conforme Rich (1995, p.285), “Eu não conheço nenhuma mulher (...) para a qual seu corpo não é um problema fundamental: seu significado enevoado, sua fertilidade, seu desejo, sua assim chamada frigidez, sua fala sangrenta, seus silêncios, suas mudanças e mutilações, seus estupros e amadurecimento.”. A forma como a menstruação é vista é, portanto, um dos produtos desta “desavença” que temos com nossos corpos, o que advém do patriarcado e consequemente da institucionalização de uma noção de que fenômenos extremamente políticos, como a maternidade, a heterossexualidade e a monogamia, para citar alguns, são fatos naturais.

Bobel (2010) faz uma leitura deveras interessante sobre os impactos do não engajamento de pessoas que menstruam em debates acerca da menstruação. A autora, apoiada no trabalho da linguista Suzette Elgin, afirma que “Apesar da centralidade da menstruação, até nossa linguagem falha em representá-la adequadamente.” (BOBEL, 2010, p.29) Isto é, ainda que na prática cada pessoa que menstrua o faz de uma forma única, temos somente a palavra “menstruação” para dar conta de todo o rol de vivências relacionadas à temática. Bobel (2010) recupera algumas das palavras da linguagem feminina inventada por Elgin em 1984: husháana, que significa menstruar dolorosamente; desháana, menstruar cedo; e ásháana, menstruar alegremente.

Se na linguagem já há essa defasagem, na prática então ela acontece de forma quase que violenta. O tabu que cerca a menstruação, a impossibilidade de conversar sobre o tema fora dos círculos femininos e a falta de compreensão sobre a menstruação de forma geral causa sérios problemas. Gaybor (2020) relembra o caso da famosa escritora Rupi Kaur e o banimento do instagram de sua foto com sangue menstrual em cima de sua cama. Este é um exemplo simples, mas se em uma rede social tão disseminada como o Instagram tal política de exclusão é adotada, fora das redes é ainda pior. Afinal, quem nunca escondeu um absorvente no bolso enquanto estava na escola? Quem nunca perguntou baixinho e em um sussurro quase criminal para a amiga “você tem um absorvente para me emprestar?”

E, por que mesmo sabendo que não é “pecado” menstruar, e que não somos sujas ou menos pessoas por isto, ainda sentimentos vergonha ou medo de falar sobre o assunto? Sala (2019) nos dá uma resposta. Para a autora, a dimensão histórico-social da menstruação é permeada por três níveis constitutivos do exercício colonial:


O do poder, em que se nega o valor político e público da menstruação e por isso mesmo, não se considera a implementação de políticas públicas adequadas para a distribuição equitativa, aquisição gratuita e obrigatória e gestão informada e consciente das tecnologias menstruais que o mercado oferece hoje; o do conhecimento, a partir do qual se impõe uma forma única de abordar o sangramento menstrual, o biomédico, e persiste não só em ignorar outras formas mais especulativas e até estéticas (...), mas ao negar (antigas) epistemologias outras baseado em saberes ancestrais, de raízes populares e espirituais, intimamente ligados à concepção especular do corpo e da natureza; o de gênero, a partir do qual uma menstruação essencialmente feminina é construída, ao mesmo tempo em que as novas mulheres são encorajadas - novas, porque aos olhos da sociedade elas deixam de ser meninas ao se tornarem "mulheres" e novas, já que são redefinidas como suas a participação na esfera pública torna-se cada vez mais relevante para uma experiência menstrual de seus períodos, graças aos quais podem se integrar na sociedade ao mesmo tempo que os homens. (SALA, 2019, p.2)


A política menstrual envolve, então, uma série de elementos, que variam desde a colonização de gênero e saberes ancestrais, até ao impasse entre a compulsoriedade da maternidade e a impossibilidade de admitir que uma pessoa que pode engravidar é uma pessoa que menstrua. Este caráter político da menstruação também perpassa o Estado, como Sala (2019) nos relembra: a criação de políticas públicas que ofereçam segurança menstrual para todas nós é urgente. E, considerando todas estas questões, é vital trazermos este debate não só para as RIs, mas para o internacional diário que reside em nossas rotinas e em nosso sangue.


Notas

¹ Embora eu utilize corpo feminino como sinônimo de corpo que menstrua, o faço somente com base na escrita dos textos integrais. Como Bobel (2010) argumenta, pessoas que menstruam nem sempre são mulheres.


Referências Bibliográficas


BOBEL, Chris. New blood: third-wave feminism and the politics of menstruation. New Brunswick, New Jersey, and London: Rutgers University Press, 2010.


LAWS, Sophie. Issues of Blood: the Politics of Menstruation. London: The Macmillan Press, 1990.


RICH, Adrienne. Of woman born: Motherhood as experience and institution. New York: Norton, 1995.


SALA, Núria C. Menstruación decolonial. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 28(1): 2019.


VON REBEUR, Ana. El asunto. La menstruación al desnudo. Buenos Aires: Planeta, 2012. E-book.


WINKLER, Inga T. Introduction: Menstruation as Fundamental. In: BOBEL, Chris et al. (eds.) The Palgrave Handbook of Critical Menstruation. Palgrave Macmillan, 2020.





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