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“São Muito Mais os Pontos que nos Unem do que os que nos Separam”:

Estudo de caso da insurgência feminista no Equador


Por: Leticia Helena Prochnow


Apesar de termos a base física, a vastidão de nacionalidades e singularidades latino-americanas não permitiu a criação de uma estrutura política organizada e integrada. Isso ocorre principalmente devido às distintas implantações coloniais das metrópoles europeias, impedindo uma convivência entre as sociedades aqui estabelecidas no século XVI. Ainda assim, na atualidade, os então Estados independentes na América Latina parecem ter um maior contato com outros centros hegemônicos do que com seus países vizinhos. Ao analisar o plano linguístico-cultural, nos comparamos ao mundo neo britânico, ou seja, somos povos tão diferenciados como os estadunidenses são dos australianos, e abrigamos uma imensa categoria de nacionalidades mais fortes em sua singularidade do que na unidade. É interessante pensar, porém, que embarcamos em jornadas tão parecidas, e que os conhecimentos repassados entre as comunidades e ativistas podem ser analisados com a mesma profundidade no cenário brasileiro.

As Américas constituem um espaço de desigualdades muito coeso e estruturado. Os vizinhos latinos sentem, inclusive, uma certa integração entre assuntos de gênero e inclusão de minorias na política, fruto também das conjunturas neoliberais que se alinham atualmente. Assim como a diplomacia brasileira, no Equador existem movimentos que buscam atingir a equidade de gênero por meio de políticas afirmativas, inclusão e minorias sociais no âmbito público e desconstrução de conhecimentos pautados nos guias do norte global. As iniciativas que lá estão sendo desenvolvidas tornam-se de extrema importância para a análise brasileira nestes mesmos temas.

A integração feminina na vida política no Equador, assim como no resto da América Latina, ocorre de forma tardia, influenciada pelo contexto internacional, bem como por mudanças nacionais no espectro da educação, acesso ao trabalho e incorporação da mulher na esfera pública. Em meados do século XX, não houve um grande avanço do papel das mulheres além de sua participação na esfera privada. Embora tenham-se angariados avanços no acesso à educação, o aprendizado está relacionado ao seu papel, socialmente determinado e fixo, como esposa, mãe e filha. O contexto regional é significantemente alterado quando em 1924 o país se torna o primeiro da América Latina a legalizar o voto feminino em território nacional. A partir desse momento, inicia-se a introdução da mulher no campo político equatoriano, que desde então, sofreu muitos avanços e também resistência do conservadorismo sul-americano e o contexto internacional do século XX.

Em 1987, Magdalena Fegan Polit se torna a primeira mulher embaixadora, atuando em seus primeiros anos como primeira secretária da embaixada do Equador no México. Apesar do lento crescimento, uma série de movimento feministas, principalmente de lideranças indígenas, puseram pressão sobre o processo e nos anos 2000, parecem ter deslanchado através de políticas afirmativas e sociais. As insurgências indígenas, em sua maioria com lideranças femininas, foram de suma relevância na concretização do atual cenário, e no início do desenvolvimento de ações afirmativas que garantiam a inclusão de minorias étnicas e supria a desigualdade de gênero em cargos públicos e de mediação internacional.

La aparición de las acciones afirmativas en el Ecuador, no es un hecho de simple reproducción de lo que se está haciendo en otros países, más bien, es la prueba que el tema del racismo y exclusión social, no solo es un hecho que ha estado causando problemas en nuestro país, sino alrededor de todo el mundo. Es decir como perspectiva necesaria que hace pensar el problema del racismo y discriminación racial como histórico, estructural, institucional y sistémico. De esta manera, la perspectiva del tema de reparación a grupos minoritarios en el Ecuador apunta a generar cambios profundos, siendo la acción afirmativa una medida, entre otros, a avanzar estos cambios y la justicia reparativa” en Acciones Afirmativas para el pueblo Afro ecuatoriano.


O atual processo também evidenciou a falta de representação política feminina no Equador e, de forma mais geral, na América Latina. A exclusão de líderes mulheres não ocorre, portanto, apenas nas fileiras da insurgência feminista, como também é endossado pela sociedade civil (FLÓREZ, 2018). O debate acerca da igualdade ocidental, sustentada por modelos iluministas calcados à realidade europeia, encontra na democracia colombiana um limite tangível, na inclusão de pautas de gênero, raça ou classe nas delimitações democráticas dos países latino americanos.

A política eleitoral na América Latina sempre foi dominada por uma elite masculina, branca e heterossexual, um âmbito que torna praticamente impossível defender e promover elementos como a diversidade de mulheres negras, indígenas, deficientes, de esquerda dentro da política (FLÓREZ, 2018). Diante do exercício de poder que marginaliza as mulheres, é importante enfatizar que a resistência e inclusão dessas mulheres conquistou mais uma vez o direito à luta feminina por representação política regional e nacional.

Essa representação demonstra que, para além do papel de agentes ativas neste novo movimento, as mulheres possuem uma grande habilidade e potencial mobilizador e de articulação política. A temática, por ser tão rica em detalhes e bibliografia, provê um espaço produtivo para destrinchar o futuro das mulheres como agentes da mudança e pacificadoras, fazendo-se obrigatória a sua participação na construção e manutenção da paz em países ao redor do mundo. É necessário que, para além de uma interpretação envolvendo atores governamentais, se inclua no processo a visão e as experiências de atores não governamentais, ampliando o escopo do debate e da construção de iniciativas de manutenção e inclusão de mulheres na política sul americana.


Referências

ARCOVERDE, Mariana Torreão Brito. Gênero e interseccionalidade: chaves de leitura para um feminismo latino-americano. In: II SIMPÓSIO INTERNACIONAL PENSAR E REPENSAR A AMÉRICA LATINA, 2., 2016, São Paulo. Anais [...] . São Paulo: Usp, 2016. p. 1-13. Disponível em: https://sites.usp.br/prolam/wpcontent/uploads/sites/35/2016/12/ARCOVERDE_SP22-Anais-do-II-Simp%C3%B3sio-Pensar-e-Repensar-a-Am%C3%A9rica-Latina1.pdf. Acesso em: 19 out. 2020.

CANORA, María. La fuerza de las voces del feminismo en América Latina. El Ordem Mundial, [S.I.], 2020. Disponível em: https://elordenmundial.com/feminismo-en-america-latina/. Acesso em: 22 mar. 2020.


CORREA, Paola Andrea Mateus; ZAPATA, Paula Andrea Molavoque; BRICEÑO, Camila Andrea Suarez. PARTICIPACIÓN POLÍTICA DE LA MUJER SUMAPACEÑA: un aporte didáctico para la implementación del primer punto del acuerdo firmado entre las farc-ep y el gobierno nacional. 2017. 142 f. TCC (Graduação) - Curso de Ciencias Económicas y Sociales, Universidad de La Salle, Bogotá, 2017. Disponível em: https://ciencia.lasalle.edu.co/trabajo_social/74/. Acesso em: 04 dez. 2020.


DANTAS, Maria Eduarda Borba. Gênero e cultura: uma reflexão pós-colonial. 2015. 22 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ciências Políticas, Ufrgs, Porto Alegre, 2015. Disponível em: https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/BORBA-DANTAS-MARIA-EDUARDA.pdf. Acesso em: 10 out. 2020.

SÁNCHEZ, Carolina Jiménez. Las mujeres y la guerrilla: ¿un espacio para las políticas de género?. Revista Iberoamericana de Filosofía, Política y Humanidades, [S.I.], v. 16, n. 32, p. 383-397, 11 abr. 2014. Disponível em: https://idus.us.es/handle/11441/46152. Acesso em: 10 dez. 2020.



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