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Mulheres armênias: as dores do genocídio

por Deborah Lopes e Isabela Mendes


“Os soldados estavam empurrando na frente deles 300 ou 400 meninas e mulheres armênias nuas. Estas foram colocadas em leilão e todo o lote vendido, alguns por dois, três e quatro francos. Apenas os maometanos podiam comprar. O vendedor não parava de exclamar: ‘Alegrai-vos, ó fiéis, pela vergonha dos cristãos’ ” (DERDERIAN, 2005 – tradução livre).


A narrativa acima traz à tona todos os sentimentos advindos do genocídio armênio (1915-1917), encerrado há mais de um século, deixando marcas profundas na sociedade, principalmente nas mulheres armênias. Para entender as motivações do genocídio e, consequentemente, analisar os impactos nas mulheres armênias, é preciso voltar à história.

A história do povo armênio remete à Bíblia, a tradição conta que a Arca de Noé pousou no Monte Ararat, portanto os armênios são considerados filhos de Noé, que salvou a humanidade a mando de Deus. O primeiro registro histórico do nome “Armênia” é de 552 a.c, portanto sintetiza a história europeia e das antigas civilizações. A região do monte Ararat é localizada entre o Ocidente e o Oriente, palco de muitas guerras, a região que um dia foi a Armênia, após conquistas de povos persas, romanos e árabes, hoje é parte da Turquia Oriental e parte do Irã. (SUMMA, 2007, p.13).

A importância de remeter à história bíblica é devido à união que a religião armênia deu ao seu povo. A independência da Igreja Apostólica Armênia das demais Igrejas Católicas permitiu dar continuidade à língua, ao alfabeto e à cultura armênia. Inclusive, durante o período soviético, a Igreja Armênia permaneceu exercendo sua cultura, protegendo a identidade do povo armênio, sendo mais que um aspecto religioso, mas sim de identidade nacional. (SUMMA, 2007, p.15).

No século XI, os turcos invadiram pela primeira vez o território armênio, e os armênios fugiram para a Cilícia, onde já haviam colônias, em busca de independência e liberdade. O território então ficou conhecido como Nova Armênia ou Armênia Ciciliana. Foi depois, no século XVI, que a Armênia foi invadida e anexada ao vasto Império Otomano (1453-1922). O povo armênio fazia parte de uma elite industrial e econômica dentro do Império e sofria com momentos de maior tranquilidade e outros de maior perseguição, até que em 1876, durante o governo de Abdul-Hamid, começaram a ser massacrados. (SUMMA, 2007, p.15-17).

Segundo a pesquisadora Renata Summa (2007), Abdul-Hamid massacrou os armênios para evitar que uma revolução desse povo chamasse a atenção da Rússia para os territórios ocupados pelos armênios. A violência de Abdul-Hamid gerou descontentamento entre os próprios turcos, motivando-os a criarem em 1889, o Comitê União e o Progresso (CUP) - Ittihad ve Terakki em turco-otomano - uma organização secreta formada primordialmente por estudantes, o qual, em teoria, seguia a linha progressista, pregando por exemplo a liberdade religiosa e o combate aos privilégios, também conhecida como os Jovens Turcos. Seu objetivo principal era modernizar o Império ao modelo suíço, onde diferentes nacionalidades pudessem viver em harmonia. No entanto, a história nos mostra que a ideia de otomanismo igualitário dos Jovens Turcos se transformou em um nacionalismo xenofóbico. Ahmed Riza, um dos idealizadores do movimento, descreveu-o como “liberal sim, mas antes turco”. (SUMMA, 2007, p. 17-18). O grupo, apesar de ter essa idealização, na prática o pensamento tentava criar uma identidade turca única, isto é, só existiria um povo turco e desta forma, não haveria espaço para as múltiplas etnias existentes no Império Otomano.

Em conjunto com outras delegações de oposição ao sultão otomano, conseguiram tirá-lo do poder por meio de um golpe de Estado no ano de 1908. Após o bem sucedido golpe, se reuniram para discutir o destino do território otomano, nessa discussão, os Jovens Turcos divergiam sobre os armênios, de um lado, o príncipe Mohammed Sabaheddin queria dar maior autonomia às minorias do Império Otomano, os armênios inclusos, do outro, estava Ahmed Riza, que negava dar autonomia aos armênios.

Após a ascensão dos Jovens Turcos ao poder, o Império Otomano perdeu muitos territórios: com a independência da Bulgária, com a anexação de Creta, pela Grécia e da Bósnia-Herzegovina, pela Áustria. A queda do Império aumentou o ódio contra as minorias, o qual os armênios sofreram mais com o rechaço. Em 1909, um episódio é considerado estopim para a violência contra os armênios: em uma briga, um armênio matou dois turcos e em retaliação desproporcional e injustificável, 25 mil armênios foram mortos. E em 1914, com a Primeira Guerra Mundial, o plano de extermínio armênio foi executado. (SUMMA, 2007, p. 21).

Com a entrada otomana na Primeira Guerra Mundial, o governo do CUP, para estimular o nacionalismo turco, ordenou o boicote ao comércio e indústria dos armênios, expulsou os funcionários de origem armênia e iniciou uma forte censura às mídias armênias (RUIZ, 2018). Essas medidas contra a minoria armênia foram se radicalizando dentro das elites do CUP e, em 1915, ocorreu o desarmamento dos soldados armênios no Exército turco - eles haviam recebido para integrar na guerra turca-russa, após o desarme, houve a eliminação das elites armênias, expropriações de terras, fome e destruição do material cultural armênio (RUIZ, 2018).

Havia começado o genocídio armênio. Em 1915, seiscentos intelectuais armênios são presos em Istambul e assassinados. Após essa primeira grande ofensiva, a segunda veio após trinta e dois armênios, habitantes de Zeitun, atacarem dois policiais turcos acusados de violentarem jovens armênias. Soldados turcos foram enviados para retaliar e, após conflito armado, os habitantes de Zeitun foram deportados. Nesse processo, os homens armênios eram intimados a se juntar ao exército sob pena de morte, mas mesmo os que saíam das cidades acabavam assassinados, enquanto as mulheres eram deportadas e obrigadas a se casarem com homens turcos como estratégia para apagar a nação armênia. (SUMMA, 2007, p. 20-25). Conforme nos mostra Renata Summa (2007), ocorreram detenções em massa dos armênios na cidade de Dortyol, como também deportações de diversos líderes e cidadãos armênios. O ministro do Interior, Talaat, emitiu um regulamento que permitiu o saque dos bens armênios organizado pelo Estado. Entre 1916-1917 ocorreram mais de milhares de mortes de armênios na região otomana, tendo diversas consequências sociais. O país só alcançou sua independência no ano de 1918 após vencer as batalhas de Sardarabad, Bach-Abaran e Karakiliná contra os turcos.

Lorde Bryce e Toynbee, no livro Atrocidades Turcas na Armênia relatam que:


“Toda a manhã os carros iam gemendo para fora da cidade carregados de mulheres e crianças, misturadas com um homem aqui e ali que havia conseguido escapar das precedentes deportações. As mulheres e crianças iam todas vestidas à turca para não ficarem expostas aos olhares dos carroceiros e gendarmes, gente brutal trazida de outras regiões. O pânico na cidade era terrível. O povo compreendia que o governo estava determinado a exterminar a raça armênia e que esta não tinha os meios de lhe resistir. O povo sabia também que estavam sendo assassinados os homens e raptadas as mulheres. Muitos dos forçados das prisões tinham sido postos em liberdade e as montanhas em volta achavam-se cheias de bandos de facínoras. A maioria dos armênios do distrito achava-se sem meio algum de se defender. Muitos diziam que era pior do que um massacre. Ninguém sabia o que estava por vir, mas todos tinham um pressentimento de que se aproximava o final. Os próprios ministros e chefes não tinham palavras de esperança para animá-los. Muitos começaram a duvidar da existência do próprio Deus”. (SUMMA, 2007, p.23)

Em matéria de conflitos, o estupro e o abuso físico são táticas de guerra utilizadas para desumanizar e desestruturar a identidade cultural de um povo. De acordo com Scholz (2018), a violência sexual se relaciona aos diversos aspectos ligados à opressão da mulher, e “em situações de conflito, tais abusos ganham novos entornos e especificidades, se manifestando com ainda mais força”. Os estudos feministas analisam que o projeto de construção da nação, também envolve um projeto de construção de gênero na construção do Estado.

O genocídio armênio promovido pelo Império Otomano entre os anos de 1915 e 1923, impactou de maneira diferente homens e mulheres. Enquanto os homens eram assassinados ou deportados, as mulheres eram violentadas, sendo as principais vítimas de violência, além dos estupros como forma de legitimar o poder turco, a limpeza étnica armênia também foi evidenciada pela tática. Muitas armênias foram vítimas de estupros para gerarem uma “nova” linhagem étnica, isto é, uma forma de purificação do sangue e da diminuição dos traços armênios e, ainda, os turcos casavam com as esposas dos armênios assassinados como forma de apropriação de suas terras e domínios familiares, isso porque elas eram vistas como reprodutoras da nação e como transmissoras da cultura e das tradições, enquanto os homens eram encarnados no Estado, responsáveis por liderar os rumos da nação.

No artigo Motherhood Armenianness (2014), Seven Bukian explica que a família, enquanto instituição, foi alvo do Império Otomano como tentativa de quebrar o tradicionalismo armênio. Eram promovidos os Kinbazhin para doutrinar mulheres armênias com princípios comunistas, mas as mulheres resistiram trazendo ainda mais força à família, para a identidade nacional armênia, além da língua e da religião, a imagem da mulher como pilar da família era muito importante. Na resistência armênia as mulheres estiveram envolvidas, tanto nas tarefas de cuidado, quanto carregando armas e lutando ao lado dos homens na defesa de seu território. Importante pontuar que a capacidade reprodutiva das mulheres se tornou símbolo de sobrevivência da nação armênia. Sevan utiliza o argumento de Katherine Verderys de que gênero e nação existem em parte como um aspecto da subjetividade - identidades de nação e gênero, por exemplo - que orienta pessoas. Esta subjetividade está presente nos entendimentos culturais e situações sociais das pessoas, como é a maternidade para as mulheres armênias. (BEUKIAN, 2014, p.252).

Seven (2014) faz outra pontuação importante em relação ao primeiro conflito com o Azerbaijão: o movimento nacionalista adotou um discurso de irmandade para unir os armênios da diáspora aos locais e formar a resistência. No entanto nesse movimento, as experiênicas das mulheres e as discussões de gênero foram perdidas, sendo estas necessárias para entender a atual guerra em Nagorno Karabakh, onde todos estão revivendo as dores do genocídio, mas que as mulheres, por serem vítimas de estupro, precisam ter o apoio e união dos grupos feministas do mundo inteiro, sejam eles armênios ou não. (BEUKIAN, 2014, p.254).

Sobre o atual conflito entre Azerbaijão e Armênia em Nagorno Karabakh, desde o cessar fogo de 1994, confrontos eclodiram periodicamente, e em julho de 2020, com a morte de dezesseis pessoas na fronteira, o conflito armado foi retomado. Equipamentos militares russos e turcos são vistos em conflito, sendo a Rússia apoiando a Armênia e a Turquia apoiando o Azerbaijão. Deve ser dada atenção à motivação geopolítica para o estouro de um novo conflito na região: os 60 km de oleoduto que ligam o Mar Cáspio à Europa. Segundo Ariel Cohen, do Atlantic Council (2020), as esperanças da Europa de explorar os recursos do Cáspio para reduzir sua dependência das fontes de petróleo da Rússia podem estar em perigo por causa do conflito. Com essa percepção geopolítica, se torna claro porquê as potências estão começando a se pronunciar sobre o reconhecimento do genocídio armênio. Um exemplo dessa mudança de postura foi o caso estadunidense, o qual Obama, em seu novo livro (OBAMA, 2020, p.640), expôs que não reconheceu o genocídio armênio durante seu governo para manter boas relações com a Turquia - maior parceiro muçulmano e localizado em região estratégica entre dois continentes. A marioria dos estados dos Estados Unidos reconheceu o genocídio armênio, e desta maneira, cobrou uma posição dos candidatos à presidência na corrida eleitoral de 2020, como consequência, o então candidato Joe Biden prometeu que, se eleito, reconheceria o genocídio armênio.

Segundo o governo turco, 62% da população armênia que vivia no Império Otomano morreu em 1914, mas os números armênios são de que 71% da população foi exterminada em nome do otomanismo (SUMMA, 2007, p.28-29). O reconhecimento do genocídio armênio por parte da Turquia e de toda a comunidade internacional é importante em respeito aos descendentes dos armênios assassinados, mas também para alertar à humanidade das atrocidades que foram e continuam sendo cometidas.

Nota-se que o termo “genocídio”, foi criado pelo jurista Raphael Lemkim, judeu nascido na Polônia, após a Segunda Guerra Mundial, e deriva do grego “Genus” - raça - e “Cide” - matança. A importância da existência desse termo se deve em parte por um genocídio ser mais que um massacre, e sim a exterminação de um grupo por inteiro, independente de gênero e idade. Sendo então um crime premeditado contra a humanidade, com o objetivo de aniquilação total. (SUMMA, 2007, p.12).

Em Vozes Armênias, Renata (2007) recolhe o relato de Lusinê, que diz que a maior dor é a Turquia não reconhecer o genocídio. Enquanto filha de cônsul armênio em São Paulo, diz entender a fragilidade das relações diplomáticas e tem consciência de que se tiver reconhecimento, não será por justiça, mas sim pela vontade das grandes potências mundiais, se sentido, portanto, uma marionete.

Após assistirmos na Primeira Guerra Mundial, o genocídio armênio, na Segunda Guerra Mundial, as atrocidades cometidas contra os judeus e atualmente com os rohingyas em Mianmar e com os indígenas no Brasil, entre tantas outras minorias que já sofreram ou sofrem atrocidades, que a história nos sirva de alerta e que a humanidade seja restaurada, afinal, partindo de uma Teoria Crítica das Relações Internacionais, os Estados são entes compostos por pessoas, e também compostos por mulheres, que entre tantas dores, carregam as dores da violação de seus corpos e de suas ancestrais.


Foto de capa: Piruza Khalapyan, fotógrafa armênia


Referências Bibliográficas:


BARACK, O. A promised land. 1ª edição. Estados Unidos: Crown, 2020.


BEUKIAN, S. Motherhood as Armenianness: Expressions of Femininity in the Making of Armenian National Identity. Studies in Ethnicity and Nationalism: Vol. 14, No. 2, 2014.


COHEN, Ariel. Explainer: What’s behind the fighting between Armenia and Azerbaijan?. Atlantic Council. 28.08.2020. Disponível em: <https://www.atlanticcouncil.org/blogs/new-atlanticist/explainer-whats-behind-the-fighting-between-armenia-and-azerbaijan/>.


DUARTE, L. S. A mulher armênia em meio ao genocídio. Periódico Não me Kahlo. 2021.


JUNIOR, E. Conflito entre Armênia e Azerbaijão teve participação decisiva da Turquia. Jornal da USP. 02.12.2020. Disponível em: <https://jornal.usp.br/atualidades/conflito-entre-armenia-e-azerbaijao-teve-participacao-decisiva-da-turquia/>.


RUIZ, A. P. El genocidio armenio: antecedentes proceso y consecuencias. Monografia apresentada na Universidad de Cantabria. 2018.


SCHOLZ. F. W. Gênero e as Relações Internacionais: o uso da violência sexual como arma de guerra. Cadernos de Relações Internacionais/PUC-Rio. Edição especial "Gênero e Sexualidade nas RI", vol. 1. abr. 2018.


SUMMA, R. F. Vozes armênias: memórias de um genocídio. Revista Ética e Filosofia Política – Volume 10 – Nº 1. 2007.


VARETA, Brisa. Dimensiones de género en el genocidio del pueblo armenio. La Aljaba, vol. IV. Universidad Nacional de Luján, 1999.


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