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Mulheres Ambientalistas e a Urgência Climática: uma questão de segurança

por Deborah Lopes

Isabela Mendes


Atualmente o debate ambientalista tem ganhado envergadura e mais notoriedade em razão dos esforços da sociedade civil, sobretudo, da comunidade científica e das mulheres.

Enquanto esta se dedicou a explicar a relação entre meio ambiente e gênero, aquela alertou

sobre o impacto das ações humanas na natureza. Esses esforços são notados no meio nternacional pela Organização das Nações Unidas (ONU), a qual promoveu diversas

conferências para a discussão sobre o tema.

A principal conferência sobre o meio ambiente foi a Conferência de Estocolmo realizada em 1972, como consequência direta começou a avançar o que veio a ser chamado de desenvolvimento sustentável, conceito cunhado décadas depois pelo Relatório Brundtland. Nesse documento também foi evidenciado o aspecto tridimensional do desenvolvimento sustentável tais sejam econômico, social e ambiental. Esse tema foi institucionalizado pela Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento, conhecida como Eco 92. Nesta conferência o debate ambiental ganhou mais força e dela surgiu a Agenda 21, a qual comprometia os Estados a adotarem métodos de proteção ambiental, justiça social eficiência econômica. Sabendo da assimetria dos países, esses métodos possuíam as mesmas responsabilidades, porém diferenciadas para cada realidade.

Em decorrência da Conferência de Estocolmo também iniciou o debate sobre o impacto das mudanças climáticas no gênero. Grupos feministas começaram a discutir a temática e surgiu uma nova vertente do feminismo: as ecofeministas afirmaram a importância da preservação ambiental para as mulheres, como também ressaltaram a importância da retomada da associação entre ser humano x meio natural.

Elas se valeram dos referenciais feministas, pelos quais a inserção do gênero no debate acerca da política e economia internacional e o impacto que ele traz para a vida das mulheres ressignificam conceitos chaves para as Relações Internacionais (RI). Para elas, a

segurança internacional é um campo multidimensional e multinível, desta forma as ameaças à ela estariam ligadas à pobreza, subordinação de gênero e destruição ecológica. As ecofeministas reafirmam o entendimento que o gênero não é apenas sobre as mulheres, mas também sobre a forma pela qual as políticas internacionais são enquadradas, estudadas e implementadas.

As ecofeministas enxergam similaridades entre a natureza e as mulheres, ambas possuem a invisibilidade do trabalho, isto é, o trabalho que ambas produzem não é valorado e tão pouco entra no cálculo econômico dos Estados, e segundo elas, é por meio deste trabalho invisível que a sociedade se sustenta. Elas corroboram com a tese criticando o sistema capitalista e a sociedade patriarcal, intrinsecamente ligados. A sociedade patriarcal e dominante gera um processo de violência contra as mulheres, e a partir desta constatação, tentam explicar como esse sistema, que rege o sistema político, social e econômico a nível global é o grande responsável pela destruição do planeta, assim como pela falta de direitos e oportunidades para as mulheres. Para elas, a sociedade patriarcal produz uma dualidade da realidade: ser humano x natureza, homem x mulher, desenvolvimento x meio ambiente. Esse clima de oposição contribui para a subordinação de um pelo o outro, se baseando em uma lógica de que para possuir um, o outro precisa ser dominado.

As teóricas acreditam que a luta pelo direito das mulheres está ligada às reivindicações para um mundo mais sustentável, desta forma elas propõe alternativas que possam corroborar com uma maior valorização do trabalho feminino como o direito da agricultura familiar e de subsistência, segurança alimentar, produção livre de poluentes, conservação e preservação de habitats naturais e ecossistemas e formas de energia limpa.

As ecofeministas também se preocupam com a responsabilidade da mulher na economia familiar, consequência da divisão sexual do trabalho que levou as mulheres a exercerem determinadas tarefas, sendo em sua maioria tarefas ligadas ao âmbito doméstico.Essa divisão contribui para a desigualdade entre homens e mulheres e também para um distanciamento entre a produção e reprodução da vida, isto é, a produção de bens materiais ou não e para reprodução do cotidiano da sociedade e suas interações. Esse afastamento, na visão ecofeminista, colabora negativamente para a irresponsabilidade sobre as ações humanas, uma vez que leva a sociedade ao não reconhecimento das condições em que se realiza a produção da comida, do vestuário, ou seja, do custo socioambiental do que

produzimos e consumimos.

Em países em desenvolvimento, as maiores vítimas das mudanças climáticas são as

mulheres, isso causa uma diminuição de sua qualidade de vida. As diversas conexões entre

esse modelo insustentável e as mulheres são evidentes, tanto em termos de exploração direta da mão de obra rural, como na expulsão das famílias pela expansão da fronteira agrícola destinando cada vez mais terras aos monocultivos, com impactos sobre a soberania alimentar e a saúde das populações rurais e urbanas. Partindo dessa premissa, não há dúvidas de que as crises climáticas afetam diretamente a vida das mulheres de maneira desproporcional. Os eventos extremos causados pelas crises, seja por inundações, secas, furacões, tsunamis ou outro desastre natural agrava o cenário para as mulheres, bem como contribuem para problemas nas colheitas ou inundações, aumentando assim a pressão nos lares e nos meios de subsistência.

A mudança climática é vista como um multiplicador de ameaças: pode agravar a migração e o deslocamento de populações, obrigando essas mulheres a andarem dezenas de quilômetros todos os dias para garantirem água, lenha e comida para as suas famílias e com isso elas se tornam vulneráveis à violência. Isso é provado pelos dados do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que indicam que 72% do total de

pessoas que vivem em extrema pobreza e que estão mais vulneráveis a desastres ambientais

são mulheres.

Sobre o papel das mulheres na preservação ambiental, dados de 2016 da Aliança Global de Gênero e Clima ilustram que as mulheres são importantes agentes na conservação da biodiversidade, especialmente na América Latina. Essas são ações das mulheres na sociedade civil, quando analisamos os dados das mulheres tomadoras de decisão dentro de Comitês das Nações Unidas, apenas 20% dos autores de relatórios sobre o clima são mulheres.

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), o atual modelo de desenvolvimento está esgotado pela instabilidade do sistema financeiro internacional responsável pela concentração de renda, desigualdade social e pelo risco de uma crise ambiental sem precedentes. Foi nesse contexto que em 1997, no Consenso de Santiago, decidiu-se incorporar as perspectivas de gênero ao desenvolvimento sustentável.Porém mais que uma questão econômico social, a urgência climática é uma questão de segurança.

Conforme aponta o relatório “Gênero, clima e segurança: sustentando a paz inclusiva

na linha de frente das mudanças climáticas”, os impactos das mudanças climáticas ameaçam

a paz e a segurança ao aumentar a competição por recursos e ao obrigar as pessoas a

migrarem para regiões com mais recursos. Neste contexto, as experiências dos homens e das mulheres variam, devido às estruturas de poder sociais, isto é, o patriarcado. Este mesmo relatório indica que em 2018, 77% dos ativistas assassinados eram defensores do meio ambiente e dos direitos humanos e muitos desses ativistas eram mulheres. As mulheres

continuam sendo excluídas da propriedade de terras, das tomadas de decisão e da governança ambiental - vivemos em um contexto onde somos deslegitimadas e a violência contra nossos corpos, como em muitas situações de conflito, é usada contra nós para nos fragilizar e nos calar. Mas as que podem erguer sua voz, erguerão, é por isso que apoiamos a Professora Larissa Mies Bombardi, que buscou exílio após receber ameaças frente à repercussão internacional de sua pesquisa sobre agrotóxicos no Brasil.

Para finalizar, não podemos falar sobre Desenvolvimento Sustentável sem passar

pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas para 2030. São

17 objetivos subdivididos em 169 pontos. Alguns desses objetivos são primordiais para as

dimensões de gênero nas questões de segurança climática, destacam-se: a fome zero e

agricultura sustentável, igualdade de gênero, energia limpa e acessível, cidades e

comunidades sustentáveis, ação contra a mudança climática e vida terrestre.

Não podemos dissociar o meio ambiente da vida humana, tão pouco da vida das

mulheres, é preciso investimento em políticas públicas alinhadas com tais objetivos para se

ter uma melhora na qualidade de vida dessas mulheres e consequentemente melhorar a

economia nacional. Pensar a questão ambiental é compreender que as mudanças climáticas

impactam de modo desigual a sociedade e que envolvem questões sociais e econômicas

importantes que se entrelaçam com o desenvolvimento e a elaboração de políticas nacionais e internacionais.


Referências bibliográficas:


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SOB ameaças de morte, professora da USP parte para o exílio por pesquisar agrotóxico.

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UN WOMEN. Improvement in the status of women in the United Nations system:

por Deborah Lopes en-the-united-nations-system-2019

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