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Lembrar é também esquecer? Gênero, raça e a abolição que nunca veio

por Juddy Garcez


“Branca para casar. Negra p’ra trabalhar. Mulata p’ra fornicar.” (Nascimento, 2016, p.75) Abro este artigo com essas afirmações pesadas e que muito retratam o histórico brasileiro, quiçá americano, nos séculos de escravidão - e também posteriormente. Neste dia 23 de agosto, em que celebramos o Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição, cuja primeira comemoração ocorreu no Haiti em 1998 e que hoje em dia é reconhecida também pela Unesco, é nosso papel enquanto pesquisadoras questionar as possibilidades e os limites de um mundo pós-colonial que se afirma anti-escravagista.

Antes de adentrar nos questionamentos que pretendo fazer, trago um breve histórico do porquê da escolha deste dia para a celebração da memória do tráfico e de sua abolição. A importância do 23 de agosto de 1998 surge já no século XIX, mais especificamente em 1804, quando, após cerca de treze anos de luta, a população haitiana conseguiu se ver livre das amarras francesas e pôde, então, coroar seu primeiro chefe de Estado, o imperador Dessalines, como bem nos lembra James (1989).

A priori, o que seria um combate contra a escravidão, a posteriori significou um rompimento com as relações de dependência formal forçadas pela França no país caribenho. Tais acontecimentos, que tinham como pano de fundo uma divisão de classes locais entre negros, mulatos e brancos, aliados a colonialidade francesa, isto é, a presença de relações hierárquicas entre periferia (Haiti) e metrópole (França em um primeiro momento, mas também Grã-Bretanha, Alemanha e Estados Unidos em um segundo), sufocaram mudanças sociais, políticas e econômicos no solo haitiano e tornaram o país suscetível a reificação de opressões por um lado e a impossibilidade de encontrar novos caminhos por outro.

O Haiti, contudo, não foi estrangulado até a morte. Sua população conseguiu armazenar ar o suficiente para continuar lutando, e é exatamente isso que a data de hoje simboliza. Entretanto, se de alguma forma temos a beleza - e as dores - da resistência, elas certamente são acompanhadas de resquícios coloniais, sexistas e racistas que se perpetuam em movimentações sociais que se dizem anti-hegemônicas mas que, em muitos casos, falham em perceber as diferentes opressões que se interseccionam em corpos que carregam identidades sobrepostas.

Em meio às celebrações em memória do tráfico de escravos e sua abolição, gostaria de chamar atenção para um grupo de pessoas que, mesmo pertencente a categoria “mulher” e “negro”, é deixada de lado no movimento feminista e no movimento negro. Saindo do caso haitiano que, apesar de importante, não será o meu foco aqui, trago a partir de agora a problemática brasileira que, embora partilhe processos e traços históricos com o povo haitiano, certamente possui suas especificidades, em especial aquela que diz respeito ao discurso da “democracia racial”.

O que logo sobressai na consideração do tema básico deste ensaio é o fato de que, à base de especulações intelectuais, frequentemente com o apoio das chamadas ciências históricas, erigiu-se no Brasil o conceito da democracia racial; segundo esta, tal expressão supostamente refletiria determinada relação concreta na dinâmica da sociedade brasileira: que pretos e brancos convivem harmoniosamente, desfrutando iguais oportunidades de existência, sem nenhuma interferência, nesse jogo de paridade social, das respectivas origens raciais ou étnicas. (Nascimento, 2016, p.48)

Aqui, Lélia Gonzalez (1984, p.226) complementa: “Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus.”. Sua afirmação, que ironiza tanto o discurso da democracia racial quanto da existência de uma América (entendida como um sinônimo para Estados Unidos), é imprescindível para começarmos a pensar as ramificações que a abolição da escravidão teve no Brasil, uma vez que, embora libertas fisicamente, as pessoas escravizadas e seus descendentes negros seguem sendo oprimidos de diferentes formas, em especial a mulher negra.

Nesse sentido, a autora, a partir dos estudos de Heleieth Saffioti, argumenta que há um ocultamento da mulher negra e das suas funções socioeconômicas que sustentam as bases epistemológicas da dominação racial brasileira. Ao voltar seus olhos para a figura da mucama, que pode ser entendida por um lado como a mulata que presta serviços sexuais, e por outro, a mula, que fornece bens e serviços gerais, Lélia (1984) faz um retrato preciso do papel da mulher negra na sociedade brasileira colonial, que não se perde com o advento da abolição: hoje cabe às negras servir de entretenimento no carnaval ou serem “empregadas domésticas”.

E é aqui que reside a provocação do título deste breve artigo: lembrar é também esquecer? Ora, certamente sim. Em muitas análises de gênero, em especial na nossa preciosíssima área de Relações Internacionais, falamos muito sobre questões de gênero e sexismo. Divulgamos cursos, rodas de conversa e trabalhos de autoras que versam sobre o feminismo. Entretanto, apesar de muito falarmos sobre a figura da mulher, damos pouca ou nenhuma ênfase à mulher negra e a sua sobrevivência no período pós-abolição.

Concordo com Lélia (1984), então, quando ela diz que há um ocultamento da violência cotidiana sofrida por pessoas negras. Em se tratando especialmente da mulher negra, a autora questiona: se o feminismo luta por mulheres, lembra delas, como pode ele se esquecer da mulher negra? “A resposta, na nossa opinião, está no que alguns cientistas sociais caracterizam como racismo por omissão e cujas raízes, dizemos nós, se encontram em uma visão de mundo eurocêntrica e neo-colonialista da realidade.” (Gonzalez, 2011, p.13)

Recordo aqui um dos mais famosos discursos que colocou em xeque o racismo o movimento feminista quando, em 1863, a ativista Sojourner Truth questionou: “E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente.”¹. Trago este excerto tanto para demonstrar que lembrar é, em muitos casos, também esquecer: por vezes lembramos da opressão feminina, mas ocultamos - propositalmente ou não - a opressão racial.

Neste dia que celebra o tráfico e a sua abolição, convido todas vocês a forçarem as amarras que ainda nos cercam, mesmo que elas não sejam as mesmas para todas as mulheres, tendo como base a consciência de que não seremos completamente livres enquanto toda e qualquer mulher não for. Inspiremo-nos, então, em um dos principais nomes da literatura periférica brasileira: Carolina Maria de Jesus.

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. E indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.
...Um dia, um branco disse-me:
— Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão.
Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem. O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém. (JESUS, 2019 p.58)

Notas


¹ TRUTH, Sojourner. E eu não sou uma mulher? Tradução: Osmundo Pinho. Disponível em: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/. Acesso em: 18 ago. 2023.


Referências


GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: RIO, Flávia; LIMA, Márcia. (orgs.). Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, (1984) 2020, p. 75-93.


______. Por um feminismo afro-latino-americano. Caderno de Formação Política do Círculo Palmarino, n.1, 2011. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/271077/mod_resource/content/1/Por%20um%20feminismo%20Afro-latino-americano.pdf. Acesso em: 18 ago. 2023..


JAMES, Cyril. L. R. Os jacobinos negros. Toussaint L’Ouverture e a Revolução de São Domingos. Tradução: Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Boitempo Editorial, 2000.


JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2019.


NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 2016.


TRUTH, Sojourner. E eu não sou uma mulher? Tradução: Osmundo Pinho. Disponível em: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/. Acesso em: 18 ago. 2023.


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