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Feminismo pós colonial nas Relações Internacionais

Atualizado: 10 de mar. de 2021

por Isabela Mendes, Letícia Prochnow e Luiza Revers


Dussel (1999) pontua que decolonialismo é a compreensão de que a modernidade ocidental eurocêntrica, com a nova divisão internacional do trabalho - centro e periferia -, que inaugura uma nova fase do capitalismo, ainda mantém a exploração entre as nações. Nesta lógica, Quijano (2000) usa o termo “colonialidade de poder” para se referir aos resultados da exploração do trabalho, da reprodução da espécie e do conhecimento, que desencadeou a classificação racial e geocultural global: negros, brancos, indígenas, América, África, Ásia e Europa. Para entender o feminismo pós colonial, é importante situar que quem propôs o termo “feminismo descolonial” foi a argentina Lugones (2008), que se inspirou nas críticas do feminismo negro e de outras mulheres latinas.

A essa teoria, a feminista Lugones adicionou o gênero no centro de sua análise, uma vez que o homem europeu determinou um padrão social no processo de colonização que inviabilizou as mulheres negras e indígenas, e rompeu com a organização social anterior, na qual as estruturas tribais eram diferentes, com a existência, por exemplo, do matriarcado. Por fim, antes de inserir o feminismo pós-colonial dentro das Relações Internacionais, vale notar que a interseccionalidade junto da colonialidade de gênero devem ser utilizadas na compreensão da construção da América Latina.

Sobre isso, a professora feminista Curiel (2019, p. 40) explicita que:


A colonialidade do poder, do ser e do conhecimento [...] é o lado sombrio da modernidade, dessa modernidade ocidental em que surge o feminismo como proposta emancipatória supostamente para “todas” as mulheres. Essas interpretações têm sido chaves para o feminismo decolonial, mas uma das fontes principais tem sido os pensamentos que emergiram das práticas políticas coletivas, nas quais muitas de nós temos sido parte, e isso tem relação com os feminismos críticos e contra-hegemônicos.


Com isto em mente, de forma a compreender melhor o feminismo pós colonial nas Relações Internacionais, é preciso entender que desde de a sua criação e formalização no século XX, os estudos acerca do sistema internacional e seus atores foram pautados sobre conceitos exportados das obras de teóricos do Norte Global, em especial a Europa. A descolonização da África e da Ásia traçam uma linha fundamental na criação de uma teoria crítica e alternativa às correntes dominantes liberais, realistas e positivistas. Sobre as críticas ao conhecimento produzido no Norte Global, a autora indiana Chandra Monhanty (1994, 2008) argumenta que as mulheres do Terceiro Mundo são assumidas como vítimas, o que implica uma problemática relação de poder. Sobre isso, Curiel (2019, p. 36) alerta que a maior parcela das feministas pós-coloniais estão inseridas em meios acadêmicos distantes dos movimentos sociais, fator limitante à produção descolonizadora do conhecimento, pois desconhece a luta real de mulheres desprivilegiadas.

A partir de 1980, com o final da Guerra Fria e o surgimento da nova ordem mundial, em um mundo mais polarizado e globalizado, o pós positivismo adentra o âmbito das Teorias de Relações Internacionais (TRI) de maneira mais incisiva. O pós-colonialismo torna-se, nesse momento, um importante instrumento teórico e político para questionar as bases sociais, epistemológicas e culturais do eurocentrismo dentro das Relações Internacionais.

Apesar de o pós-colonialismo já ser uma corrente teórica trabalhada em diversas matérias das ciências sociais, sempre foi uma perspectiva marginalizada dentro das Relações Internacionais. Como descrito por Júnior e Almeida (2013, p. 2), há dois motivos principais para a falta de estímulo para essa integração e maior participação desse modelo de análise.


Esta desconcertante falta de diálogo entre o pós-colonial e a Teoria das Relações Internacionais (TRI) pode ter tido duas razões fundamentais: por um lado, pelo fato de os estudos pós-coloniais estarem ligados aos chamados estudos culturais, encontram certa resistência em transcendê-lo; no entanto, articular-se com os estudos de economia política internacional é primordial para elaborar uma crítica ao capitalismo global. Por outro lado, a recusa por parte do establishment das TRI de postura eminentemente protecionista e conservadora, em reconhecer uma abordagem que, epistêmica e politicamente, subverte a maior parte - ou por que não dizer a totalidade - de seus pressupostos centrais.


A criação de uma nova epistemologia a partir do Sul tem como principal proposta e objetivo descolonizar as RI como campo de conhecimento, e contribui para tal de maneira crítica e díspar de conteúdos com base no imperialismo e eurocentrismo (SOCCIO, 2012). Essa vertente pós-positivista também serve de pilar no desenvolvimento de teorias feministas interseccionais, chamadas de feminismo pós-colonial.

Grande crítica à epistemologia das TRI feita pelas feministas se encontra no fato de que o homem é visto como detentor e produtor de conhecimento, e assim sendo, produz conhecimento positivamente masculino e excludente, que não considera a mulher, tampouco a coloca na posição de conhecedor ou agente (FERNANDEZ; VALDÉZ, 2016). Teóricas como Cynthia Eloe e Carol Cohn são pioneiras nos estudos acerca de uma política externa feminista e a masculinidade como conceito norteador nas questões belicistas.

Na América Latina, no entanto, o estudo do gênero parte de uma visão pós-colonial e é estruturado na forma de um pensamento descolonizador, que utiliza o sul global como fonte primária de análise e produção de conhecimento. O desenvolvimento dessas correntes teóricas reafirmam a necessidade da visualização das dores latino americanas de forma singular e crítica à dominação colonial baseada na dependência.

Percebe-se, portanto, a grande importância deste recorte, uma vez que o patriarcado oprime de diferentes maneiras mulheres ao redor do mundo. Uma das grandes críticas às teorias feministas “clássicas” reside no fato de que estas englobam todas as mulheres como parte de um grande grupo homogêneo, sem recorte de raça, classe, cultura, idade e outros fatores. Este movimento acaba por invisibilizar a pluralidade de mulheres existentes e acarreta no apagamento das diferentes realidades e tribulações enfrentadas – fato que dificulta a luta por soluções eficazes, já que contextos diversos exigem condutas diversas. Neste sentido, as experiências europeias não são capazes de explicar a experiência latina, por exemplo, já que as relações de gênero não se configuram globais (FERNANDEZ; VALDÉZ, 2016). Utilizar as lentes do decolonialismo torna-se essencial na avaliação do sistema internacional e na compreensão de suas principais fraquezas e possíveis cenários futuros.


Referências


ALMEIDA, Carolina Soccio di Manno de. Pós-colonialismos e Relações Internacionais: epistemologias do sul. 2012. 71 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Pós-Graduação em Ciência Política, Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/18736/1/Disserta%c3%a7%c3%a3o%20Carolina%20Soccio%20.pdf. Acesso em: 10 nov. 2020.

ARCOVERDE, Mariana Torreão Brito. Gênero e interseccionalidade: chaves de leitura para um feminismo latino-americano. In: II SIMPÓSIO INTERNACIONAL PENSAR E REPENSAR A AMÉRICA LATINA, 2., 2016, São Paulo. Anais [...] . São Paulo: Usp, 2016. p. 1-13. Disponível em: https://sites.usp.br/prolam/wp-content/uploads/sites/35/2016/12/ARCOVERDE_SP22-Anais-do-II-Simp%C3%B3sio-Pensar-e-Repensar-a-Am%C3%A9rica-Latina1.pdf. Acesso em: 19 out. 2020.


Construindo metodologias feministas desde o feminismo decolonial. In: CURIEL, Ochy. Descolonizar o Feminismo. Local de publicação: Brasília. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Brasília, 2019.


DANTAS, Maria Eduarda Borba. Gênero e cultura: uma reflexão pós-colonial. 2015. 22 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Ciências Políticas, Ufrgs, Porto Alegre, 2015. Disponível em: https://www.ufrgs.br/sicp/wp-content/uploads/2015/09/BORBA-DANTAS-MARIA-EDUARDA.pdf. Acesso em: 10 out. 2020.


DUSSEL, Enrique. Más allá del eurocentrismo: el sistema–mundo y los límites de la modernidad, en: Castro-Gómez, S.; Guardiola-Rivera, O y Millan, C. (edits.). Pensar (en) los intersticios. Teoría y práctica de la crítica poscolonial. Bogotá: Instituto de Estudios Pensar, Universidad Javeriana, 1999.


ELÍBIO JÚNIOR, Antônio Manoel; ALMEIDA, Carolina Soccio di Manno de. Epistemologias do Sul: pós-colonialismos e os estudos das relações internacionais. Cadernos do Tempo Presente, [s. l], v. 14, n. 14, p. 05-11, 21 jul. 2014. Disponível em: https://seer.ufs.br/index.php/tempo/article/view/2684. Acesso em: 10 nov. 2020.

LUGONES, María. Colonialidad y Género: Hacia un feminismo descolonial, en: Género y Descolonialidad. Mignolo, W. (comp.). Buenos Aires: Del signo, 2008.


QUIJANO, Aníbal. Colonialidad del poder, eurocentrismo y América Latina, en: La colonialidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales: Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires e Caracas: CLACSO y UNESCO, 2000.


FERNÁNDEZ, Maurício Lascuarín e VALDEZ, Luis Fernando Villafuerte. The International Relations Theory Under a Feminist Approach. Revista de Relaciones Internacionales, Estrategia y Seguridad, vol. 11, núm. 1, janeiro-julho, 2016, pp. 45-61. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/927/92743369003.pdf. Acesso em: 06 nov. 2020.


Isabela Fernanda Mendes - Faculdades de Campinas


Letícia Helena Prochnow - Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI)


Luiza de Oliveira Revers - Universidade Positivo

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