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Feminismo Anti-Colonial Palestino como Resposta à Nostalgia Masculina em Situações de Conflitos

Atualizado: 12 de jul. de 2021

Texto por: Deborah Lopes, Isabela Mendes e Nicole Canali


Em situação de conflito é comum as correntes feministas denunciarem a violência contra as mulheres nas diversas camadas dos conflitos armados, étnicos, guerras civis e etc. No entanto, poucas chamam atenção à questão do gênero e seus estereótipos em situação de conflito e em como esses papéis mudam ao longo do conflito em questão.

Tickner (2001, p.2) trás que os estudos clássicos da segurança internacional possuem uma linguagem masculinizada, a qual oculta os papéis das mulheres na sociedade. Cohen adiciona que a linguagem que usamos molda a maneira pela qual enxergamos o mundo, dessa forma um discurso masculinizado sugere que o único modo válido em discutir temas sobre segurança internacional (TICKER, 2001, p.53).

Foiatto (2018, p.31) acrescenta que algumas vertentes do feminismo já investigam essas valorizações masculinas e a capacidade de influenciar a política dos Estados. Isso é evidenciado quando analisamos um conflito mais de perto e aqui analisaremos a ocupação de Israel sobre a Palestina.

Antes da Primeira Guerra Mundial, o território da Palestina tinha sido disputado pela França e pela Grã-Bretanha, após o desmembramento do Império Otomano. A Liga das Nações, consequentemente, foi responsável por decidir os mandatos. O resultado foi que o mandato sobre a Síria e o Líbano foi delegado à França e o mandato sobre a Mesopotâmia e a Palestina foi delegado à Grã-Bretanha. A França resguardou alguns territórios reivindicados pela Organização Sionista Mundial, e a Grã-Bretanha, em 1921, com a revisão do texto do mandato sobre a Palestina, deixou de ter obrigações de aplicar a Declaração de Balfour para além do Jordão. (DUPAS; VIGEVANI, 2002, p.13)

Da partilha da Palestina havia duas propostas em discussão. A primeira proposta era do plano da maioria, de ponto de vista sionista: um Estado árabe e outro judeu. E o plano da minoria de criação de um Estado federal com duas unidades políticas. O plano adotado foi o da maioria, com a criação do Estado de Israel em 1947. A criação do Estado de Israel foi proclamada em 14 de maio, pouco antes do fim do mandato britânico na Palestina. O conflito entre Israel e os palestinos se intensificou com a reação árabe à criação do Estado de Israel após a retirada das tropas inglesas (DUPAS; VIGEVANI, 2002, p.8)

Antes da criação do Estado de Israel, no Oriente Médio, os sionistas se organizaram em instituições quase governamentais, com, até mesmo, capacidade militar, o que desagradou à comunidade palestina cuja reação desembocou na Revolta Palestina, de 1936 a 1939, caracterizada pela luta de guerrilha, que foi repreendida pelos judeus com apoio britânico. Após a Segunda Guerra Mundial, os judeus vítimas do holocausto precisavam ainda mais de um lar. Em 1945, a Palestina recebeu os primeiros refugiados judeus da Guerra e em 1947, a Grã-Bretanha convocou a reunião na qual foi recomendada a partilha da Palestina para criação de um estado árabe e um judeu, associados numa unidade econômica com Jerusalém internacional. O descontentamento árabe frente a esta recomendação junto à resposta judia se expressou em forma de batalha na Guerra dos Seis Dias através da qual Israel anexou territórios palestinos, como o Sinai e as Colinas de Golã. (DUPAS; VIGEVANI, 2002, p. 14-16).

A partir de 1967, Israel passou a ser condenado por ocupação de territórios palestinos. Desde 1956, depois da Guerra de Suez, mas mais acentuadamente a partir de 1967, depois da Guerra dos Seis Dias, o reconhecimento das reivindicações árabes passam a ser vistas como justas. (CASARÕES; VIGEVANI, 2014, p.156-157).

Em 1973 o cenário de crise do petróleo foi agravado com a Guerra do Yom Kippur, conflito militar de 6 a 26 de outubro de 1973 entre a coalizão árabe (liderada por Egito e Síria) e Israel. Essa guerra se iniciou com um ataque surpresa pelo Egito e Síria no feriado judaico de Yom Kippur contra Israel. O avanço foi no Sinai e nas Colinas de Golã, regiões anexadas por Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967. Em 1973, vigorou um cessar-fogo das Nações Unidas, e em seguida, em 1978, vieram os Acordos de Camp David entre Israel e Egito - sem presença palestina - tirando as negociações de paz do âmbito exclusivo da Organização das Nações Unidas. Entretanto, este foi um episódio importante onde um país árabe reconheceu o Estado de Israel. (HOLAND; 2012, p.56).

Com a expansão dos assentamentos judaicos no território palestino, este diminuiu drasticamente de tamanho, resultando em duas áreas de concentração palestina: Cisjordânia e Faixa de Gaza, além de Jerusalém Oriental. Essas áreas apesar de serem palestinas não são controladas por ela. Suas fronteiras, seu abastecimento de água e comida, o fluxo de pessoas, bem como suas documentações são controladas por Israel.

Esse controle externo de Israel na população palestina gera diversos confrontos sejam físicos, sejam psicológicos, entre os judeus e os palestinos. Nesses embates observamos, por parte de Israel, estruturas e formas de dominação ligados ao estereótipo masculino, isto é, estruturas que reforçam a lógica patriarcal. Isso não é só nocivo para os homens palestinos, que ficam com um sentimento de humilhação, mas também é nocivo para as mulheres palestinas que são duplamente marginalizadas por essas estruturas.

Sendo assim, as mulheres palestinas precisam resistir a duas formas de opressão: a opressão masculina, e também a colonialista (Santos; Gobo, 2012, p. 6). Partindo desse fato, percebe-se que o feminismo palestino é uma forma de resistência à opressão colonial, da mesma forma que se apresenta como uma resposta à nostalgia masculina provocada pelo conflito e ocupação por parte de Israel. Assim, o feminismo anti-colonial palestino carrega um forte viés nacionalista, para reafirmar a nação palestina, e também para empoderar e garantir os direitos das mulheres diante da sociedade patriarcal (Santos; Gobo, 2012, p. 6).

No que se refere a nostalgia masculina, é necessário voltar os olhos para essa temática, com o objetivo de entender como o feminismo decolonial palestino se apresenta como resposta a essa questão. Nostalgia masculina é um conceito que se relaciona com os padrões construídos socialmente de masculinidade. A nostalgia masculina, portanto, é a melancolia causada pelo afastamento desses padrões, algo muito recorrente em situações de conflito, e principalmente em um cenário de ocupação. Isso acontece porque, os homens simplesmente não conseguem atender a esses parâmetros devido à posição inferior que assumem devido a presença da opressão de outro Estado e forças armadas ou beligerantes.

Segundo um estudo realizados por MacKenzie e Foster no artigo “Masculinity nostalgia: How war and occupation inspire a yearning for gender order” (2017), os elementos de nostalgia masculina presentes no contexto da Palestina são: a paternidade, a posse de terras e o trabalho. No caso, a perda dessas posições em razão do conflito com Israel, é a causadora dessa nostalgia masculina. Mais especificamente: a humilhação de pais em frente a seus filhos e esposa, a perda de território devido a guerra e consequente perda da posse de terras, e o desemprego causado pelo conflito.

Levando esse conceito em consideração, percebe-se que o feminismo anti-colonial é um contraponto à nostalgia masculina. Isso se deve ao fato de que o feminismo reconhece que esse papel masculino é social. Da mesma maneira, como dito anteriormente, é uma resposta ao colonialismo israelense, a partir do momento que, sua raíz nacionalista reafirma a sociedade palestina diante da ocupação por parte de Israel.

Israel é um dos países com maior poder militar do mundo, suas forças armadas estão entre as melhores, segundo dados do governo. Ele é também um dos maiores investidores bélicos nacionais e internacionais. Segundo a Forbes, Israel é o segundo país que mais investe em armamento, cerca de 5,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB). De acordo com Tickner (2001, p.42) a militarização é uma das principais ameaças à segurança da população, como acrescenta Chernoy e Vanaik (2001):

As sociedades militarizadas são mais hierárquicas e patriarcais em comparação com as não-militarizadas, e até as sociedades com estruturas democráticas podem tornar-se cada vez mais militarizadas. Essas sociedades, então, tendem a ser mais opressivas para as mulheres, tanto na esfera pública como na privada. Consciência e linguagem tornam-se militarizadas. A resposta imediata para a maioria das dissensões é a coerção, incluindo a militar. Tudo isso aponta para uma necessidade urgente de trazer as mulheres para a esfera pública nessas sociedades.(CHENOY & VANAIK, 2001, p.131)

De acordo com Foiatto (2018, p.35), “esse sistema é baseado em características humanas dicotômicas as quais geralmente são mutuamente exclusivas”. Essas dicotomias são associadas com a masculinidade e feminilidade, e em casos de conflito sempre ocorre a sobrevalorização das estruturas masculinizadas.

Sobre a mobilização das mulheres em resposta ao machismo e à nostalgia masculina, tanto as israelenses quanto as palestinas se uniram num contexto de nacionalismo. Ambos movimentos feministas nasceram de processos e eventos sociopolíticos regionais e a Doutora Élisabeth Marteu em sua pesquisa sobre o tema tem o cuidado de adaptar o termo decolonial para o contexto Israelo Palestino - de migração e diáspora. A autora reafirma que nesse contexto o feminismo é produto de uma intersecção entre nação, etnia e identidade e ainda acrescenta que dados os anos de conflito, a formulação de ambos feminismos tem sido estruturada em paralelo e reflexivamente. Marteu pontua que no caso de Israel, o movimento feminista se expressou através da busca por um território nacional e no caso da Palestina, foi construído num contexto de diáspora e exílio. No caso Palestino, o movimento após 1948 foi conectado à Organização para a Libertação Palestina (OLP). O feminismo palestino que se desenvolveu progressivamente nos anos 1970, particularmente nos territórios ocupados, permaneceu ancordado entre gênero e nação. A União Geral das Mulheres Palestinas foi inclusive criada, em 1965, com a OLP. Depois, em 1978, militantes e estudantes de Ramallah criaram o Women´s Work Committe, que devido às divergências políticas se fragmentou com a criação do Fatah. O turning point, segundo a autora, foi entre 1987 e 1993 com a ocupação dos espaços públicos durante a Primeira Intifada. Sobre a solidariedade feminina, não podemos esquecer do Jerusalem Link, criada em 1994 para unir mulheres políticas israelenses e palestinas, promovendo diálogo árabe-judeu. (MARTEU, 2021, p. 2-10).

Existem muitas críticas ao movimento feminista em relação ao elitismo e heteronormatividade, mas o que gostaríamos de realçar é que a solidariedade entre as mulheres, em qualquer contexto, mas principalmente em contexto de conflito, é necessária e poderosa.

Com a saída de Netanyahu do poder e a ascensão de um novo governo de esquerda, o movimento feminista palestino e os movimentos a favor da causa palestina se polarizaram a respeito. Ao mesmo tem que uma parte, acredita no diálogo entre o novo governo israelense e o governo palestino, outra, acredita na continuação da política de ocupação. Fato é que o movimento feminista tá crescendo e aumentando a solidariedade à causa e a esperança de uma melhora na qualidade de vida palestina.


Bibliografia:

CASARÕES, Guilherme; VIGEVANI, Tullo. O lugar de Israel e da Palestina na política

externa brasileira: antissemitismo, voto majoritário ou promotor de paz?. História (São

Paulo) v.33, n.2, p. 150-188, jul./dez. 2014 ISSN 1980-4369.

CHENOY, AnuradhaMitra; VANAIK, Achin. Promoting Peace, Security and Conflict Resolution: Gender Balance in Decision Making. In: SKJELSBÆK, Inger; SMITH, Dan. Gender, Peace and Conflict. Londres: Sage Publications, 2001. Cap. 7. p. 122-138.

DUPAS, Gilberto; VIGEVANI, Tullo (Orgs.) Israel–Palestina: a construção da paz vista de uma perspectiva global. São Paulo: Editora Unesp, 2002; 322 p. ISBN: 85-7139-377-X

EMBAIXADA DE ISRAEL. Israeli Missions Around the World. s.a/a. Disponível em: https://embassies.gov.il/MFA/Portuguese/Pages/ESTADO-FDI.aspx

FOIATTO, J. Representação de Gênero nos Conflitos Armados: Uma Análise da Produção Teórica Feminista em Relações Internacionais a partir de 1980. Cadernos de Relações Internacionais/PUC - Rio Edição especial “Gênero e Sexualidade nas RI” Vol. 2, set. 2018.

HOLAND, Carla Andréia Ronconi. A política externa do governo Lula (2003-2010) para o Oriente Médio: precedentes, avanços e retomadas. Programa de pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2012.

MARTEU, Élisabeth. Israeli and Palestinian Feminisms: Postcolonial Issues. In: Revue Tiers Monde. Volume 209, Issue 1, 2021, p. 71- 88.

MCCARTHY, Nial. 12 países que mais usam seu PIB para gastos militares. Forbes, 2015.

MACKENZIE, Megan; FOSTER, Alana. Masculinity nostalgia: How war and occupation inspire a yearning for gender order. Security Dialogue 2017, Vol. 48(3) 206–223.

SANTOS, Claudia; GOBO, Carla. Movimento de mulheres palestinas ou um feminismo nacionalista. NEPRI/UFPR, 2012.

TICKNER, J. Ann. Gendering World Politics. Nova Iorque: Columbia University Press, 2001.



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