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ESPORTE: Um Encontro da Corporalidade com a História das Mulheres

Por: Nicole Canali de Castro


O corpo e as mulheres são dois elementos esquecidos pela história (GOELLNER, 2007). Isso porque a historiografia dominante é aquela contada por homens, majoritariamente brancos e ocidentais, excluindo mulheres e outros grupos minoritários da narrativa. Assim como também é uma história que exclui o aspecto material dos homens: o corpo ou a corporalidade, como se a história da humanidade fosse composta de feitos que superam o tempo e o espaço físico (LE GOFF e TRUONG apud GOELLNER). Sendo assim, um dos grandes feitos da historiografia feminista foi dar foco para ambos corpos e mulheres.

A importância histórica do corpo é indubitável, já que antes objeto de análise apenas de ciências exatas como a biologia, foi raíz de argumentos deterministas em relação à superioridade de povos em relação à outros, e da inferioridade de um sexo sobre outro. É por meio de premissas como essas que surgem os papéis sociais atribuídos a cada sexo, algo explicado pelo conceito de gênero, que é usado não apenas como ferramenta analítica dentro das ciências sociais e dos estudos feministas, mas também para compreender o corpo, a corporalidade humana e seus limites.

O esporte, sobretudo, é um campo de estudo muito interessante para analisar os papéis de gênero e sua relação com os limites impostos aos corpos. Isso porque o mundo esportivo é um terreno fértil para o determinismo biológico, que dita como cada sexo pode ou deve se movimentar. De fato, os homens produzem mais testosterona do que as mulheres, e por essa razão têm mais facilidade para desenvolver músculos e habilidades como velocidade e potência de explosão. Isso dá vantagem a eles em relação às mulheres em alguns esportes.

Levando isso em consideração, as competições esportivas costumam se dividir nas categorias masculina e feminina. Essa divisão, por si só, não é um problema. Por um lado, é uma ótima solução para que as mulheres sejam atletas competitivas. O problema reside no aspecto social do que é considerado um esporte que mulheres devem ou não praticar, ou dos elementos do papel de gênero em cada esporte.

Nesse sentido, alguns elementos são abordados por Miriam Adelman em seu estudo “Mulheres no Esporte: Corporalidades e Subjetividades Movimento” (ALDEMAN, 2007), ao entrevistar jogadoras de vôlei da seleção brasileira, e atletas do hipismo. A autora aponta para as alegações das amazonas do hipismo, que disseram ter pouco apoio dos familiares no início da carreira, já que o esporte parece ser perigoso, e portanto recebiam afirmações de que montar cavalos não era atividade para uma menina. Assim, revelando o determinismo dos papéis sociais de gênero, de que as mulheres, diferente dos homens, não devem se engajar em atividades que exijam algum risco. Algo que não tem embasamento nenhum em capacidades físicas ou habilidades específicas que recaem sobre homens ou mulheres.

Ao mesmo tempo, nas entrevistas conduzidas por Adelman (2007), as jogadoras de vôlei também declararam que ficam receosas de desenvolverem uma musculatura que remeta ao masculino, devido às cargas de treino e musculação exigidas pelo esporte. Nesse ponto em específico, pode-se perceber uma limitação, também social, imposta sobre o corpo. Nessa lógica, um homem musculoso é bem visto, e uma mulher com músculos é vista como se perdesse sua feminilidade.

Outro ponto interessante sobre a relação entre as mulheres e o esporte, é que mesmo quando as mulheres conseguem ultrapassar as barreiras de gênero como as citadas acima, e se mantém na prática esportiva, é comum que as características mencionadas sobre sua relação com a prática sejam tipicamente carregadas de rótulos de gênero. Por exemplo, as amazonas seriam “elegantes” ou “belas”, e adjetivos como “cuidadosa” e “carinhosa” sobre o seu vínculo com os cavalos também poderiam ser mencionados.

A esgrima é outro esporte que exemplifica esses rótulos. Mesmo sendo um esporte milenar, e presente nas olimpíadas modernas desde sua primeira edição, em 1896, as mulheres só passaram a competir em 1924, mas apenas na modalidade do florete. O florete, dentre as três armas da esgrima, é considerado mais leve, que exige flexibilidade e um toque mais delicado - características ligadas ao ideário feminino. Entretanto o sabre, arma mais ágil e violenta, só passou a ser permitido nos jogos olímpicos para a categoria feminina, a partir da edição de 2004. Além disso, mesmo sendo algo ultrapassado, é comum que até hoje, no final de um duelo feminino, as atletas realizem a saudação e cumprimento exigido na forma de um beijo no rosto, enquanto os homens apenas dão um aperto de mãos.

A ligação entre corpo e mulheres no esporte também é presente quando as mídias e a imprensa estão envolvidas. Em muitos casos as atletas são objetificadas e sexualizadas, também servindo para reforçar padrões de beleza para outras mulheres que não possuem o mesmo estilo de vida e nem os mesmos objetivos que as atletas.

Por fim, vale destacar que os papéis de gênero no esporte não se enquadram apenas para mulheres, já que homens também sofrem preconceito na prática de alguns esportes específicos, que são considerados mais femininos. Por essa razão, é importante ressaltar que, assim como a teoria pós-estruturalista afirma, tudo o que nos cerca é uma construção discursiva. Os corpos, portanto, assim como as mulheres, também são constituídos de discursos.


Referências

ADELMAN, Miriam. Mulheres no Esporte: Corporalidades e Subjetividades Movimento, vol. 12, núm. 1, janeiro/abril, 2006, pp. 11-29. Escola de Educação Física Rio Grande do Sul, Brasil. Disponível em: https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=115315943002. Acesso em: 26 jul. 2021.


GOELLNER, Silvana Vilodre. Feminismos, mulheres e esportes: questões epistemológicas sobre o fazer historiográfico. Movimento, Porto Alegre, v.13, n. 02, p.171-196, maio/agosto de 2007. Acesso em: 26 jul. 2021.



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