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Empreendedorismo feminino como uma necessidade após a maternidade

por Maria Eduarda Frota Jorge João

A maternidade é, sem dúvidas, um processo único. Cada mulher, conforme suas circunstâncias, vai vivenciar esse processo de maneiras diferentes. Algumas mães descrevem como “a melhor experiência da vida” enquanto outras não têm a mesma visão. No entanto, o panorama do mercado para a maternidade não encontra tantas contradições assim. O capitalismo financeirizado e patriarcal é estruturalmente montado para pessoas que não menstruam e não parem. Mulheres com útero, no geral, são submetidas a tempos de trabalho que não levam em conta seus ciclos e muito menos o seu processo durante e pós gestar uma vida. Porém, como afirma Dejours (2007), o trabalho é uma questão central na construção da identidade, saúde e realização pessoal. Contraditoriamente, Francescheto (2018) cita que “as tensões entre o trabalho e a vida familiar restringem as oportunidades disponíveis às mulheres, em muitos casos são obrigadas a optar entre o trabalho e os cuidados com a família” (CASTOLDI et al, 2020).

Mesmo com o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho, o gênero feminino ainda é associado ao trabalho doméstico (STROBINO, TEIXEIRA, 2014). Essa associação é responsável por grande parte da discriminação no meio corporativo, que associada as jornadas inflexíveis de trabalho e a pressão para conciliar vida pessoal e profissional, acaba impulsionando o empreendedorismo feminino, especialmente após a maternidade, como uma resposta direta a essas situações (MACHADO, 2012).

Com a globalização e o avanço das tecnologias e do e-commerce, o reposicionamento de mulheres-mães no mercado se tornou uma opção ainda mais viável, uma vez que apesar das dificuldades, a autodeterminação, autonomia e liberdade podem levar a maior realização profissional e pessoal pela capacidade de se manter próxima a criança ao mesmo tempo que gera renda. Além disso, como Castoldi et al (2020) aponta ao citar Reis (2018), o empreendedorismo para as mulheres vai além, e também proporciona empoderamento a partir da descoberta de habilidades e aptidões, conquista de espaço, impacto positivo na comunidade e independência financeira.

De acordo com Francescheto (2018), é possível conciliar maternidade e carreira, e se for da vontade da mulher, a reinserção dentro de grandes corporativas é possível. Contudo, no Brasil, a crescente participação das mulheres no empreendedorismo brasileiro indica um grande potencial de contribuição para o desenvolvimento do país (JONATHAN, 2011). Em uma pesquisa realizada em 2019 pelo SEBRAE, quase metade dos MEI (Microempreendedor individual) no Brasil são mulheres e 55% destas optam pela própria residência como local de funcionamento da empresa.

Todavia, Jonathan também aponta nos resultados de sua pesquisa, os desafios para atingir a totalidade do potencial desses empreendimentos ainda configuram uma barreira no desenvolvimento do mesmo no país: Altos custos, burocracia, dificuldade de acesso a créditos e a própria discriminação de gênero e jornada dupla foram citadas por algumas das empreendedoras entrevistas como principais dificuldades.

Outro fator que chama atenção é o perfil dessas empreendedoras que são, no geral, mulheres em volta dos 45 anos, escolarizadas, casadas, com filhos (em média dois) e que possuem no mínimo 10h semanais para dedicar ao seu negócio. É preciso desenvolver um olhar crítico sobre esses dados e se questionar: onde estão as mães jovens, com baixa escolaridade e solteiras? Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Data Popular, somente o último grupo possui mais de 20 milhões no Brasil.. Em um país subdesenvolvido como o Brasil, em que a desigualdade se torna cada vez mais acentuada, é importante buscar um olhar sensível para a inclusão de grupos sociais que podem estar sendo deixados atrás de uma neblina de crescimento e desenvolvimento que não os envolve. Nesse caso, pensa-se nas mães jovens, negras, periféricas, solteiras/viúvas e afins.

Assim, podemos concluir que o empreendedorismo feminino se tornou, além de necessidade, uma válvula de resistência, empoderamento e reinserção no mercado para mulheres-mães frente a um sistema mercadológico preconceituoso e patriarcal. O trabalho é uma forma de construção de valor próprio e identidade, por isso, ao empreender, mulheres que poderiam ser excluídas do mercado encontram uma forma de tomar o controle da vida profissional e pessoal a partir dos empreendimentos. Apesar das dificuldades, fica claro também que, no Brasil, o empreendedorismo feminino vem de forma extremamente necessária e pode ser um diferencial para o desenvolvimento econômico do país. Porém, é necessário expandir a visão para que todos os perfis de mães tenham a oportunidade de se inserir e crescer no mercado, seja como MEI ou em grandes corporações, sendo que empresas grandes precisam tratar a questão sintomática do machismo dentro de suas culturas para se adaptar à nova realidade do papel das mulheres como trabalhadoras.




Referências:


JONATHAN, Eva G. Mulheres empreendedoras: o desafio da escolha do empreendedorismo e o exercício do poder. Psicologia Clínica, v. 23, n. 1, p. 65–85, 2011. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-56652011000100005&lng=pt&tlng=pt>. Acesso em: 4 May 2021.

CASTOLDI, Elisângela; DELIBERAL, Janielen ; CUCCHI, Marlon. Maternidade e Carreira: Reposicionamento das Mulheres no Mercado de Trabalho após a Maternidade, 2020. Disponível em: <http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/mostraucsppga/xxmostrappga/paper/viewFile/6612/2133>.

‌Relatório especial Empreendedorismo Feminino no Brasil. [s.l.]: , [s.d.]. Disponível em: <https://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae/UFs/GO/Sebrae%20de%20A%20a%20Z/Empreendedorismo%20Feminino%20no%20Brasil%202019_v5.pdf>.

CNM - Confederação Nacional de Municípios | Comunicação. Cnm.org.br. Disponível em: <https://www.cnm.org.br/index.php/comunicacao/radio_item/segundo-pesquisa-brasil-tem-mais-de-20-milhoes-de-maes-solteiras#:~:text=O%20Brasil%20tem%2067%20milh%C3%B5es,s%C3%A3o%20solteiras%20e%2046%25%20trabalham.>. Acesso em: 4 May 2021.








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