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Antimilitarismo feminista nas relações internacionais

Atualizado: 10 de mar. de 2021

por Leticia Helena Prochnow


A teoria feminista aplicada à relações internacionais amplia as abordagens diplomáticas e estratégicas dando enfoque ao gênero, e principalmente, desconstruindo os conceitos patriarcais que moldam a política externa. Da mesma forma, o antimilitarismo feminista surge como uma alternativa ao militarismo institucional estimulado por teóricos mais clássicos dentro das teorias de relações internacionais, firmando o poder de um Estado através da medição de sua força bruta: armas de destruição em massa, a extensão de seu exército e uma política de segurança agressiva. Assim, a força e a capacidade militar de um Estado são associam ao seu grau de masculinidade perante a sociedade internacional.

Dessa maneira, teóricas feministas propõem explicar como a cultura militar e o militarismo como ferramenta de poder se opõem aos ideais feministas e de que forma as relações internacionais se beneficiaram da teoria feminista a fim de moldar a política externa de um Estado. Essa análise feminista sobre o militarismo, iniciada pelas autoras Carol Cohn e Sara Ruddick, indica que as motivações da guerra são evocadas dentro de estruturas políticas e econômicas baseadas na subjugação sexual e nas dinâmicas misóginas do militarismo estatal. Torna-se impossível compreender completamente o espectro do militarismo sem a utilização de uma abordagem feminista, uma vez que ele é estruturado como instrumento político com base na desigualdade de gênero, raça e classe.

Essa análise considera também os efeitos da guerra e da diplomacia militarista sob a população civil, explicitando em especial o recorte de gênero e raça, e de que modo comunidades são afetadas pelos conflitos. Um artigo publicado por Claire Duncanson e Catherine Eschle é o passo inicial na aplicação da teoria feminista e o Estado das Armas Nucleares, realizando uma crítica ao White Paper, documento publicado pelo governo do Reino Unido renovando o programa de armas nucleares Trident, no que Duncanson e Eschl argumentam é possibilitado pelo uso de linguagem masculinizada pelo governo do Reino Unido, embutida na identidade do estado desde sua construção como Estado Nacional. Esse mesmo programa, instituído inicialmente em 1980, foi a razão principal para as manifestações anti militares lideradas por mulheres no Greenham Common Women's Peace Camp, um dos campos de resistência e paz construídos no Reino Unido como forma de se opor à política nuclear do país.

Para além do gênero, o antimilitarismo feminista também conversa sobre os efeitos da guerra sob diferentes recortes de raça e classe. A partir dos anos 80, estudos críticos do movimento anti militar colocaram em evidência a falta de discussões protagonizando mulheres negras e indígenas e seus papéis na cultura militar e patriarcal constituída nos países ocidentais. O debate, iniciado por Bárbara Omelade, é essencial para compreender o racismo dentro do movimento feminista, e principalmente, estender a discussão acerca do militarismo, articulando o antimilitarismo feminista de forma a atender a procura imperialista, racista e capitalista dos Estados por poder.

O antimilitarismo feminista é, dessa maneira, uma das correntes teóricas que mais se desenvolveram no século XXI, impactando de forma direta estudos acerca da mobilidade de gênero na sociedade militarizada e compreendendo mulheres como principais vítimas da sociedade civil em conflitos armados. Referências: BUTLER , Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. 1. ed. Londres: Routledge, 1990. 179 p. v. 1.

COCKBURN, Cynthia. Antimilitarism: Political and Gender Dynamics of Peace Movements. 1. ed. [S. l.]: Palgrave Mcmillan, 2012. 297 p. v. 1.

FEINMAN, Ilene. Citizenship Rites: Feminist Soldiers and Feminist Antimilitarists. 1. ed. Nova York: New York University Press, 2000. 292 p. v. 1.

DUCANSON, Claire; ESCHLE, Catherine. Gender and the Nuclear Weapons State: A Feminist Critique of the UK Government‘s White Paper on Trident. Taylor & Francis in New Political Science, [S. l.], p. 1 - 35, 26 nov. 2008. Disponível em: https://strathprints.strath.ac.uk/26529/. Acesso em: 6 jul. 2020.

WHY and which feminist anti militarism?. Intérprete: Cynthia Cockburn. [S. l.]: Annual General Meeting of the Women's International League for Peace and Freedom, 2003. Disponível em: https://cynthiacockburn.typepad.com/Blogfemantimilitarism.pdf. Acesso em: 7 jul. 2020.

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