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A Teoria da Dependência e Mulheres Periféricas

Uma Análise de Gênero a partir do Processo de Globalização Neoliberal

Por: Leticia Helena Prochnow


A teoria da dependência é parte essencial dos estudos das ciências sociais latino americanas, e ressurgiu nos debates contemporâneos como alternativa de interpretação de movimentos modernos, como o neoliberalismo, a crise democrática e dinâmicas de gênero na atualidade. Apesar de retratar as raízes do subdesenvolvimento da periferia e sua relação com o capitalismo e imperialismo extensivamente, seus teóricos acabam por não se debruçar sobre as consequências dos mesmos nas pautas de gênero da sociedade moderna, suprimindo a análise e inclusão do sistema patriarcal como base das relações de gênero em países marginalizados e politicamente dependentes de centros hegemônicos da comunidade internacional.

As colônias latino-americanas tinham em comum uma característica singular que persiste até os dias de hoje como Estados independentes e soberanos: a dependência política e econômica das hegemonias eurocêntricas, mantendo-os na periferia do sistema capitalista e longe do desenvolvimento de uma indústria nacional forte e estruturada. A necessidade da criação e concretização de políticas públicas para a América Latina foi o pontapé inicial para o desenvolvimento da teoria da dependência, no final dos anos 1950 sob a direção de Raul Prebisch, diretor da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina. A escola dependentista, nesse sentido, “criticava os pressupostos eurocêntricos dos cepalistas, incluindo a ortodoxia marxista e as teorias da modernização norte-americana” (GROSFOGUEL, 2018).

Em uma análise contemporânea, e relacionando os conceitos da teoria dentro dos estudos de gênero, é necessário examinar os efeitos da globalização, impulsionados pelo capitalismo moderno, na população de mulheres em países subdesenvolvidos. A metodologia feminista é utilizada para compreender esses movimentos em sua base, e sem ela o estudo da dependência entre os Estados hegemônicos e periféricos se torna incompleta e distorcida quando referenciando as disfunções entre grupos minoritários na América Latina (Everett; Charlton, 2013). Dessa forma, pesquisas relacionadas à eficácia do capitalismo e da globalização neoliberal de relações políticas e econômicas, acabam não incluindo o exame destes movimentos da perspectiva de gênero. Dependendo da lente de análise, verifica-se que o avanço da globalização e da interdependência entre os Estados trouxe tanto vantagens quanto desvantagens para mulheres em diferentes campos, seja acadêmico ou profissional.

A influência das políticas neoliberais ao redor do globo afeta diretamente as relações de gênero e a hierarquização do trabalho na sociedade moderna. Ao desenvolver uma crítica a esse movimento, o movimento pós-colonial avalia a precarização do trabalho feminino em países periféricos. Segundo Bonet (2008, p. 10),


La nueva dinámica de reproducción ampliada del capital puesta en marcha a partir de las últimas décadas del siglo XX y la primera del XXI ha evidenciado que la depredadora expansión mundial del capitalismo neoliberal parece no tener límites: el capital no deja escapar nada ni perdona a nadie, transforma todo —la tierra, el agua, la biodiversidad— y a todos en mercadería vendible [...] Este empobrecimiento humano global afecta especialmente a los países periféricos y semiperiféricos del sistema mundial.


Assim, as práticas e políticas excludentes desse processo possibilitam a criação de um regime de facismo social, e nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, “vivemos em sociedades politicamente democráticas mas socialmente fascistas”. Em sua análise, esse é denominado “facismo de apartheid”, de forma que a população é dividida em zonas diferenciadas e semi permanentes por meio de características socioeconomicas. Isso pode ser visualizado por meio da divisão social do trabalho, e de que maneira a mão de obra feminina está sofrendo mais cortes e desemprego que a população masculina.

Os efeitos desse processo são vistos principalmente na remuneração de mulheres no mercado de trabalho, onde encontram-se mulheres trabalhando em jornadas parciais e muitas vezes na informalidade, sem direito aos direitos trabalhistas de seu país. Na área rural a situação é ainda mais sensível e urgente, visto que os dados fornecem a base para analisar as causas da imensa pobreza, exclusão e marginalização das mulheres campesinas, relacionando-se ao caráter exclusivo da dinâmica neoliberal materializada por meio das políticas, programas e ações governamentais do governo federal e dos Estados latino americanos (KAY, 2008).

Partindo dos pressupostos da teoria da dependência, é possível construir uma interpretação sob as lentes da teoria feminista e de gênero acerca dos movimentos dos Estados nacionais através do processo de globalização neoliberal. A formação de práticas alternativas, que possam contrariar a dinâmica da sociedade neoliberal, tem o potencial de remodelar a democracia sob a orientação de ideais de participação política e inclusão, desestabilizando as estruturas de exclusão há anos construídas e arquitetada à imagem dos centros hegemônicos do sistema capitalista.


Referências

PALMA, Gabriel. Dependencia y desarrollo: una visión crítica. In: SEERS, D. (Org.). La teoría de la dependencia: una revaluación crítica. Ciudad de México: Fondo de Cultura Económica, 1987.

BAMBIRRA, Vânia. El capitalismo dependiente latinoamericano. Ciudad de México: Siglo XXI, 1985.

EVERETT, Jana; CHARLTON, Sue Ellen M.. Women Navigating Globalization: feminist approaches to development. 2. ed. [S.I.]: Rowman & Littlefield, 2013. 221 p.

GROSFOGUEL, Ramón. Desenvolvimentismo, Modernidade e Teoria da Dependência na América Latina. Revista de Estudos Antiutilitaristas e Poscoloniais, Pernambuco, v. 3, n. 2, p. 26-55, dez. 2013. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/realis/article/view/8789/8764. Acesso em: 14 ago. 2021.

BONET, Antoni Jesús Aguiló. GLOBALIZACIÓN NEOLIBERAL, CIUDADANÍA Y DEMOCRACIA: reflexiones críticas desde la teoría política de boaventura de sousa santos. Critical Journal Of Social And Juridical Sciences, [s. l], v. 20, n. 4, p. 1-19, dez. 2008. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/181/18102004.pdf. Acesso em: 14 ago. 2021.

KAY, Cristóbal. Estudios rurales en América Latina en el periodo de globalización neoliberal: ¿una nueva ruralidad?. Rev. Mex. Sociol, Ciudad de México , v. 71, n. 4, p. 607-645, dic. 2009 . Disponível em: <http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-25032009000400001&lng=es&nrm=iso>. Acesso em: 14 agosto 2021.



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