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A Colonialidade de Gênero e da Natureza como Fatores de Compreensão do Internacional

Por: Giovana Cecilio



O campo das Relações Internacionais (RI), em sua imensidão de debates, teorias e perspectivas, é ainda recente se comparado com outros campos das ciências sociais. Mais recente ainda é a chegada dos debates contemporâneos que migraram de outras áreas do conhecimento. Podemos dizer que dois fatores explicam esse atraso, sendo eles, a distinção entre o que é considerado alta prática e baixa prática, e a inércia institucional. (HALLIDAY, 1988)

O primeiro fator, ainda segundo Halliday, refere-se ao fato de que alguns tópicos são vistos como mais importantes e urgentes do que outros; nessa lógica, estudar e pensar segurança internacional no seu sentido mais tradicional é visto como prioritário à discussão sobre a Natureza, por exemplo. Já a inércia institucional diz respeito à dificuldade de começar a pesquisar e teorizar um tema pouco debatido, o que leva à pouca produção sobre o assunto, alimentando o ciclo de escassos debates e produções. Estudos feministas nas RI são um dos temas que sofrem com a inércia institucional, ao contrário dos sobre segurança internacional, tendo em vista que este último possui uma gama de teorias e estudos que nascem junto com o próprio campo das RI.

Os debates sobre feminismos e meio ambiente estão angariando espaço dentro da disciplina devido a importância dos temas para os debates políticos, econômicos e sociais vigentes. Teorias feministas passam a figurar o haul de teorias contemporâneas utilizadas nas análises do internacional, enquanto o meio ambiente permeia debates multidisciplinares como tópico de discussão. Uma abordagem ainda mais recente - no que refere-se a sua sistematização -, é o pensamento decolonial, o qual tem tido usos frutíferos na compreensão das relações de poder no sistema internacional e suas consequências locais e globais para a vida no planeta.

Neste artigo busca-se argumentar pela necessidade de interseccionar esses elementos e teorias de análise dentro das Relações Internacionais devido a indissociabilidade observável entre questões de gênero e da Natureza. Para tanto, essa ligação será tratada de modo comparativo a partir do pensamento decolonial.

Enquanto o colonialismo foi um processo de dominação direta que possui seu marco temporal a partir da invasão das Américas até a descolonização territorial das colônias, a colonialidade é a consequência que perdura nos tempos atuais. (QUIJANO, 1992; 2009) Portanto, sendo a matriz que o constitui. Uma complexa estrutura que sujeita gênero e Natureza à dominação, assim como sujeita, por exemplo, a economia e o conhecimento. (MIGNOLO, 2010)

Ambas as formas de colonialidade estão dentro do guarda-chuva da Colonialidade do Poder, conceito cunhado por Walter Mignolo, para definir as dinâmicas que permitiram o desenvolvimento de um novo padrão de poder mundial, o capitalismo. Assim como a criação da ideia de raça, a imposição de percepções eurocêntricas de gênero e a coisificação dos corpos como força de trabalho e da Natureza como recurso, legitimaram a exploração capitalista e tornaram-se naturalizados na sociedade ocidental, consequentemente nas Relações Internacionais.

A colonialidade de gênero foi fundamental para a organização do mundo em dicotomias hierárquicas, sendo a primeira delas a distinção entre humano e não-humano. O homem branco europeu via-se como dotado de civilidade, portanto capaz de governar, e via a mulher branca europeia como pura e a seu serviço na reprodução da raça e do capital. Ao chegar às Américas e Caribe e deparar-se com outras culturas, costumes e organização do social, impôs às pessoas colonizadas o lugar de bestialidade, não eram homens e mulheres, mas machos e fêmeas. (LUGONES, 2014)


Os povos indígenas das Américas e os/as africanos/as escravizados/as eram classificados/as como espécies não humanas – como animais, incontrolavelmente sexuais e selvagens. O homem europeu, burguês, colonial moderno tornou-se um sujeito/ agente, apto a decidir, para a vida pública e o governo, um ser de civilização, heterossexual, cristão, um ser de mente e razão. A mulher europeia burguesa não era entendida como seu complemento, mas como alguém que reproduzia raça e capital por meio de sua pureza sexual, sua passividade, e por estar atada ao lar a serviço do homem branco europeu burguês[...] (LUGONES, 2014, p. 936)


A existência dessa diferença colonial faz com que, ao surgir o feminismo na Europa, tomado pela forma de um feminismo liberal e civilizatório, o mesmo não seja capaz de atender as demandas das mulheres do sul global que estão marcadas não só sob o signo do gênero, mas de raça e classe. Betty Ruth Lozano Lerma (2011) define esse feminismo europeu e angloamericano como um conjunto de discursos que definiram não somente o que é ser mulher, mas também como se dá a subordinação da mulher e as formas pelas quais é possível alcançar a emancipação.

As reordenações do Sistema Internacional ao longo dos séculos, ao fim da 2ª Guerra Mundial e da Guerra Fria, culminaram na globalização dos ideais ocidentais e ao estabelecimento do capitalismo e liberalismo como hegemônicos por meio dos Estados com economias centrais e das Organizações Internacionais. Com a ascensão dos debates feministas, a vertente que passa a figurar como parte de agendas internacionais é a do feminismo liberal e civilizatório, o qual não chega até as estruturas que perpetuam a opressão de gênero contra a maior parte da população mundial. Ferrara e Carrizo (2021) tecem críticas a este feminismo justificando que, ao homogeneizar as mulheres, não tocam nas articulações existentes entre os eixos de controle do poder capitalista colonial moderno, tornando-se ao fim, um agente na manutenção da própria colonialidade.

O mesmo aplica-se à colonialidade da Natureza. Esta, por sua vez, trata sistematicamente a questão ecológica, atentando-se para como esta foi transformada em um espaço subalterno disponível a modificações e exploração conforme as necessidades de acumulação de capital. Antes da exploração extrativista europeia ter seu início, a relação humana com a natureza pode ser definida como “sustentável”, no sentido de que os ecossistemas e tudo que os compõem eram aproveitados de modo a não interferir em seu ciclo natural. (ALIMONDA, 2011) Assim, o extrativismo foi primordial para o desenvolvimento socioeconômico da Europa e o consequente subdesenvolvimento do sul global.

Como duas abordagens que estão na margem dos debates internacionais, sendo menos trabalhados durante muitos anos mesmo dentro da escola de pensamento decolonial, a articulação teórico-política para pensar a relação gênero-Natureza se faz necessária. No livro Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas Decoloniais (2020), Maria da Graça Costa traz em seu capítulo contribuições de mulheres que pensavam e pensam essa intersecção, como Vandana Shiva:

[...] o modelo econômico e cultural ocidental constitui-se por meio da colonização das mulheres, dos povos nativos, de suas terras e da natureza. Assim, Shiva criticará as concepções modernas de economia, progresso e ciência, alertando para a urgência de adoção de um paradigma que permita a sobrevivência e uma coexistência digna dos povos e espécies da terra (COSTA, 2020, p. 339)


E D’Eaubonne:

Essa autora tratava de uma série de temas caros ao movimento feminista, problematizando as políticas de controle de natalidade e a forma como o modelo econômico produtivista dominado pelos homens e o padrão de alto consumo dos países desenvolvidos tinha um caráter sexista e racista, submetendo principalmente as mulheres dos países pobres, ao mesmo tempo em que contaminava o planeta e esgotava os recursos naturais. (COSTA, 2020, p. 338)

Mesmo com o esforço para elevar as questões de gênero e da Natureza à condição de alta política nos âmbitos local e internacional a partir de perspectivas que apresentam críticas e soluções sistêmicas, ainda há um longo caminho a ser percorrido. O discurso liberal incorpora as pautas, mas as descaracteriza dos ideais de transformação que possuem, especialmente quando apresentadas como inerentes uma à outra. Portanto, reduzindo-as a discursos sobre representatividade e igualdade de gênero, e sobre desenvolvimento sustentável, os quais são insuficientes para assegurar uma vida digna a todos os seres.


Referências


ALIMONDA, Héctor. La colonialidad de la naturaleza. Una aproximación a la Ecología Política, 2011.


FERRARA, Jessica Antunes; CARRIZO, Silvina Liliana. Caminhos para um feminismo decolonial. Cadernos Pagu, 2021.


HALLIDAY, Fred. Hidden from international relations: women and the international arena. Millennium, v. 17, n. 3, p. 419-428, 1988.


LOZANO LERMA, Betty Ruth. El feminismo no puede ser uno porque las mujeres somos diversas: aportes a un feminismo negro decolonial desde la experiencia de las mujeres negras del Pacífico colombiano. Teoría y pensamiento feminista, 2010.


LUGONES, María. Rumo a um feminismo descolonial. Revista Estudos Feministas, v. 22, p. 935-952, 2014.


MIGNOLO, Walter. Desobediencia epistémica: retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad y gramática de la descolonialidad. Ediciones del signo, 2010.


QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder e classificação social. Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, p. 84-130, 2010.


QUIJANO, Aníbal. Colonialidad y modernidad/racionalidad. Perú indígena, v. 13, n. 29, p. 11-20, 1992.


VAREJÃO, Adriana et al. Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2020.

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